capítulo 37

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O sol ainda entrava pela janela, iluminando o quarto com tons alaranjados e dourados que dançavam nas paredes. Olhei para o relógio no criado-mudo e vi que já eram 17:00. O tempo parecia passar rápido demais, mas, ao mesmo tempo, arrastado em uma lentidão dolorosa. Suspirei, tentando reunir forças, e me levantei. Porém, no instante em que meus pés tocaram o chão, fui tomada por uma dor intensa na cabeça, como se tudo ao meu redor fosse desmoronar em mil pedaços. Respirei fundo, levando uma das mãos à cabeça enquanto me apoiava no colchão. Após alguns segundos, sentei de volta na cama, observando o céu lá fora. Os tons quentes do entardecer eram lindos, mas havia algo melancólico em sua beleza, como se me lembrassem do que estava se perdendo.

Depois de me recompor, fui até o banheiro. Precisava de um banho para aliviar o peso que parecia me esmagar, tanto no corpo quanto na mente. Liguei o chuveiro, e a água quente caiu sobre mim como um abraço. Fechei os olhos e deixei a tensão escorrer com as gotas, sentindo a dor de cabeça diminuir aos poucos. Após dez minutos, saí do banheiro limpa e com roupas trocadas, embora o cansaço continuasse ali, como uma sombra difícil de afastar. Enxuguei o cabelo com a toalha enquanto olhava para o espelho. Minhas olheiras denunciavam noites mal dormidas, e meu reflexo parecia o de alguém que carregava mais do que deveria.

Desci as escadas em silêncio. A casa estava estranhamente quieta, e a luz do entardecer entrava pelas janelas, projetando sombras alongadas no chão e nas paredes. A calmaria externa contrastava com o caos que sentia dentro de mim. Quando cheguei ao andar de baixo, vi minha mãe sentada em sua poltrona favorita, perto da janela. Ela estava completamente absorta em um livro, os óculos levemente tortos no nariz e uma expressão serena que me fez hesitar por um momento. Ela parecia tão tranquila que quase voltei para o quarto sem interrompê-la.

— Mãe. — Minha voz cortou o silêncio do ambiente enquanto eu me aproximava.

Ela ergueu os olhos do livro imediatamente, colocando-o sobre a coxa e ajustando os óculos para me enxergar melhor.

— Querida, como você está? — perguntou com suavidade, mas havia um traço de preocupação em sua voz.

— A bebida me ajudou a dormir. Só estou com um pouco de dor de cabeça, nada demais. — Expliquei, tentando soar convincente.

Ela franziu o cenho levemente e começou a se levantar, ainda segurando o livro.

— Vou pedir para a Lucy preparar alguma coisa para você.

— Não precisa, mãe. — Falei rapidamente, gesticulando para que ela continuasse onde estava. — Fica aí lendo o seu livro. Eu mesma faço.

Ela hesitou por um momento antes de acenar com a cabeça.

— Tudo bem, querida. — Voltou a se acomodar na poltrona, abrindo o livro na página onde havia parado.

Já estava me afastando, a caminho da cozinha, quando algo me fez parar. Olhei para ela novamente, e minha voz saiu em um tom quase casual, mas carregado de uma curiosidade que não consegui esconder.

— A casa está muito silenciosa. A Julie saiu?

— Sua irmã e a Abby saíram há alguns minutos. — Ela respondeu, virando uma página do livro. — O Adam foi com elas também.

— Entendi. Vou para a cozinha agora. Aproveita o livro, tá? — Sorri para ela antes de me afastar novamente.

Enquanto caminhava pelo corredor, pensamentos me invadiram, como uma tempestade que eu não conseguia controlar. Era estranho estar ali, cuidando de coisas triviais, sabendo que minha mãe estava morrendo. Saber que cada dia era um passo mais perto do fim, e ainda assim estávamos todos focados no casamento da Julie. Porque ela era egoísta demais para enxergar além de si mesma. Porque, para ela, nada importava mais do que aquela cerimônia. Eu sabia que minha mãe não queria fazer tratamento, que preferia morrer em paz, e eu respeitaria sua escolha. Mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Doía. Doía profundamente saber que tudo o que eu poderia fazer era esperar e assistir.

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