Assim que abri a porta do quarto, me deparei com Kylie parada no corredor. Seus olhos estavam fixos em mim, e, no instante em que se encontraram com os meus, pude ver um certo alívio neles - como se um peso enorme tivesse sido tirado de suas costas. Era como se, por um segundo, o mundo tivesse parado, apenas para que ela pudesse respirar aliviada por me ver ali, de pé.
— Sarah, você está bem? — sua voz soou baixa, quase hesitante, e ela manteve uma certa distância entre nós. Era como se estivesse com medo... medo de se aproximar demais, de me ferir ainda mais, ou talvez do que eu pudesse fazer ou dizer.
Respirei fundo, sentindo o nó na garganta apertar. Olhei para ela e, pela primeira vez, não escondi o que se passava dentro de mim.
— Não... eu não estou bem. — minhas palavras saíram baixas, mas firmes. Pela primeira vez, tive coragem de dizer a verdade quando alguém me perguntava como eu estava. E, lá no fundo, eu sabia — de algum jeito eu sabia — que podia confiar nela.
— Sarah... eu senti muito. Eu sinto muito de verdade. - sua voz tremia de emoção, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela rompeu a distância entre nós e me puxou para um abraço apertado.
Fiquei ali, sem forças para resistir. Suas mãos subiram até meus cabelos, acariciando-os com uma delicadeza que eu não lembrava de sentir há muito tempo. Minhas próprias mãos envolveram suas costas com firmeza, como se aquele abraço fosse meu último suporte, como se eu precisasse dele para continuar de pé, para não desabar em meio ao caos que me consumia por dentro.
Ali, naquele corredor silencioso, entre lágrimas não derramadas e palavras não ditas, eu encontrei um pouco de paz no meio da tempestade.
— Eu sempre quis falar a verdade, mas a Julie não me permitiu. — disse Kylie, afastando-se levemente enquanto segurava meus ombros, olhando nos meus olhos com uma expressão de culpa misturada a uma súplica silenciosa por perdão.
Senti meu peito apertar. A raiva e a dor lutavam dentro de mim, tentando encontrar espaço para se manifestar.
— Você tinha que ter falado. — minha voz saiu embargada. — Essa mentira me atormentou por anos, Kylie. Eu perdi tanto tempo... tanto tempo que não volta mais. — fiz uma pausa, tentando controlar a enxurrada de emoções que ameaçava transbordar. Pensei em mamãe. Será que eu deveria contar? Será que ela aguentaria ouvir?
Mas antes mesmo que eu pudesse decidir, ela me surpreendeu:
— Eu já sei sobre a Audrey. — disse com a voz baixa, carregada de tristeza. Seus olhos refletiam a mesma dor que os meus. — Eu sinto muito.
Meus lábios tremeram. A menção ao nome da mamãe fez tudo desmoronar mais um pouco dentro de mim.
— Eu também sinto... — sussurrei. — Sinto por ter perdido tanto tempo, por ter deixado o orgulho e a mágoa falarem mais alto. Por ter vivido presa a uma verdade distorcida... Tudo por egoísmo e covardia.
Kylie baixou o olhar, visivelmente abalada. Sua voz saiu em um fio:
— Se eu pudesse voltar atrás... se eu pudesse consertar as coisas...
— Não precisa, Kylie. — a interrompi com suavidade, respirando fundo. — Tudo acontece do jeito que tem que ser... mesmo que doa. — me afastei alguns passos, como se o espaço físico entre nós pudesse ajudar a organizar o que estava bagunçado dentro de mim.
Ela me olhou com um misto de angústia e cuidado.
— Sarah, eu sei que não posso mudar nada do que aconteceu. Mas, se você precisar conversar... se precisar de alguém, eu estou aqui. Estou de verdade. - sua voz era atenciosa, quase um sussurro.
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Era Você
RomanceSarah e Julie sempre foram muito próximas, mas com o passar do tempo, isso mudou drasticamente, e a distância entre elas se tornou evidente. Sarah não via sua irmã há anos, até receber a notícia de que Julie iria se casar. Apesar de ser convidada pa...
