Capítulo 47 - Just shadows

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O envelope deslizou pelas mãos de Mane até repousar sobre a mesa, molhado e sujo, como se tivesse atravessado uma guerra. O cheiro de chuva misturado à poeira impregnava o ar, enquanto o papel parecia vibrar, como se, dentro dele, estivesse a resposta capaz de mudar tudo. Anahí não desviava os olhos do objeto — como se, por um instante, ele fosse o único elo com a verdade.

Mane inspirou fundo, os olhos cansados, a barba por fazer, e olhou para ela com uma expressão sombria, como quem carrega o peso de um segredo que não deveria ter sido revelado.

— Isso não saiu barato... e nem veio fácil. Mas chegou até mim por alguém que quer justiça tanto quanto você. Não posso te garantir mais nada.

Com os dedos trêmulos, Anahí abriu o envelope. Um cheiro forte de tinta fresca e papel úmido a envolveu. Dentro, dezenas de folhas grampeadas, com selos oficiais, carimbos datados e nomes grifados em vermelho. Ela engoliu em seco, seus olhos fixos na primeira página, onde um título imponente quase a sufocou:

"MOVIMENTAÇÕES FINANCEIRAS E LOGÍSTICAS – SKY HABOR - DOCAS DE LIVERPOOL"

Suas mãos, quase instintivas, começaram a virar as páginas, absorvendo cada palavra, cada número. Mas era no meio das colunas de datas, horários e códigos de carga que seu olhar fixou-se com um tipo de fome: um nome, como uma flecha, saltou da página e perfurou sua mente.

Arthur Herrera.

Ali estava ele, vinculado a diversas autorizações de entrada e saída de containers das docas nas últimas semanas, incluindo algumas datas críticas — tão próximas ao desaparecimento da carga que todos procuravam. Havia registros de transferências bancárias vultosas, vindo de contas de fachada, enviadas para empresas ligadas direta ou indiretamente a Arthur. Algumas dessas cargas estavam descritas como "material de proteção estatal", mas, ao cruzar com a legenda em uma das páginas, Anahí entendeu o que estava por trás: armamentos experimentais, e objetos de altíssimo valor estratégico.

— Isso é... — Sussurrou, o coração acelerado, os olhos cravados em uma linha específica do relatório.

15 de fevereiro, 02h47
Container código #GVT-11984
Procedência: Estação de Armazenamento Alfa-L3
Destino: Docas Norte — Plataforma B
Autorização: A. Herrera

Ela se levantou, a mão ainda segurando as folhas, como se quisesse absorver o peso daquelas palavras.

— Ele está no comando de tudo — Concluiu, a voz abafada pelo peso da revelação.

Mane cruzou os braços, assentindo com um olhar vazio, como se já esperasse essa conclusão. Ele sabia que nada seria mais simples dali em diante.

— E não está fazendo nenhum esforço para esconder — Suspendeu uma sobrancelha, desconfiada. Estava fácil demais.

Mane: Isso pode colocar Alfonso como o principal suspeito — A garganta de Anahí se apertou. Ela engoliu em seco, olhando-o. Mane não hesitou — Ou como a próxima vítima — Continuou, grave — Arthur tem motivos mais do que suficientes para tirar Alfonso do caminho, principalmente se ele souber o que realmente estava dentro daquele container — Anahí andou até a janela, olhando para a cidade que parecia suspensa em névoa, como um reflexo de sua mente confusa.

Anahí: E o governo todo está virando os olhos pra isso, fingindo que é só mais um roubo de carga. Mas se há armamento militar e raridades entre as cargas, o que realmente está sendo negociado por baixo dos panos? — Mane se aproximou dela, sua expressão mais sombria que nunca.

Mane: Acordos de guerra, talvez. Chantagens internacionais. Poder. O que mais você acha que pode estar em jogo? — Ela apertou o relatório contra o peito, como se precisasse de algo sólido em meio à confusão que tomava sua mente.

Crime e desejoOnde histórias criam vida. Descubra agora