Dois longos dias haviam se passado desde que Alfonso partilhara com Arthur o segredo guardado no fundo do baú. Enterrado e esquecido em uma terra qualquer, onde qualquer alma teria medo de cogitar a sua existência.
Aquele maldito baú o atormentava desde o dia em que decidiu abri-lo.
O segredo que ele guardava era uma combinação perigosa, explosiva, capaz de implodir as estruturas do governo, arrastar nomes poderosos para o inferno e, quem sabe, reacender uma guerra que muitos fingiam não existir mais.
Mas desde então... o silêncio havia sido ensurdecedor.
Isolado naquele apartamento tão esperado, sonhado, que ainda carregava os traços de Anahí e da reforma que faziam para transformar aquele lugar em um lar, Alfonso mal dormia. Mal comia. Caminhava em círculos pelos corredores frios, com os pensamentos martelando em sua mente como uma marcha constante. A cada batida do relógio, uma nova pergunta surgia. Um novo medo. Uma nova ferida aberta.
Anahí.
O nome dela era um eco dentro dele. Um sussurro constante. Um alívio e um tormento ao mesmo tempo.
Ela era a agente especial. A infiltrada. A mulher enviada para encontrá-lo. Para descobrir seus segredos, para encontrar os containers, para encerrar as pontas soltas de toda aquela história. Para chegar até o coração daquilo que ele protegia. E, ainda assim... ela havia olhado para ele com ternura. Tocou suas cicatrizes como quem compreendia a dor. Deitou-se ao seu lado com os olhos marejados. Contou segredos. Sorriu. Despiu sua alma e seu coração.
Mas agora... ele se perguntava, com angústia e dor: até que ponto aquilo era verdade?
Será que tudo fazia parte de um plano bem arquitetado? Será que cada gesto, cada toque, cada palavra suave havia sido calculada? Ele não conseguia ignorar a possibilidade amarga, cruel, de que estivesse vivendo dentro de uma armadilha há meses. Uma armadilha envolta em carinho falso, em promessas vazias, em olhares ensaiados.
Talvez ela soubesse o tempo todo. Talvez quisesse arrancar dele, com amor ou com pena, a verdade que ele nunca confessaria.
— Foi tudo parte de um jogo? — Sussurrou para o próprio reflexo no vidro escuro da janela — Ou eu fui ingênuo o suficiente para acreditar que ela poderia... ser minha? — Riu com amargor.
O passado veio com força, como um golpe de vento gélido.
As trincheiras da guerra. Os amigos mortos. O sangue nas mãos. As ordens que teve que cumprir. Ele nunca acreditou que fosse digno de paz. Nunca acreditou que alguém pudesse enxergar algo bom dentro dele. E quando Anahí o fez... ele acreditou. Se permitiu acreditar. E agora se perguntava se aquela fé fora apenas o prenúncio da queda.
Ele levou as mãos ao rosto, tentando conter a raiva. Não de Anahí, mas de si mesmo.
Talvez ela tivesse sentido algo real. Talvez. Mas até que ponto? Até que ponto aquele sentimento resistiria quando ela descobrisse tudo? Quando soubesse da chave, do livro, da gravidade do que ele escondeu? Quando ela descobrisse que ele era muito mais do que o homem atormentado pela guerra. Era o herdeiro de um império podre, com sangue e corrupção entranhados em cada canto.
Como ela poderia pertencer a alguém assim?
Como ele poderia permitir que ela ficasse, sabendo que o cerco estava se fechando?
O governo voltaria. As gangues voltariam. Os fantasmas já estavam à espreita. E no fim, se ela ficasse, pagaria o preço mais alto.
Era por isso que Alfonso sabia que precisava afastá-la. Antes que o sentimento se transformasse em mais dor. Antes que o amor, se ainda houvesse algum, se tornasse uma sentença de morte.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Crime e desejo
FanfictionNão se pode ter tudo na vida, e era sobre isso que refletia naquele momento. Mas era exatamente isso o que desejava. A ambição era inimiga da perfeição, assim como a pressa. E pressa, era algo que nenhum dos dois tinha naquele momento. Afinal, crime...
