O pedido dele ainda estava ali.
Não como uma ordem.
Mas como algo mais difícil de ignorar.
Um pedido sincero.
Anahí caminhava de volta pelo corredor, mas não estava exatamente ali. O corpo ainda carregava o calor do toque dele, o gosto do beijo, o peso das palavras que tinham vindo baixas, quase como uma confissão.
Fica fora disso.
Ela podia. Era claro que podia. Por ele, por seu filho, por ela.
Pela primeira vez, a ideia não soava absurda.
Alfonso não tinha mentido. Ela conhecia bem demais cada nuance dele — os silêncios errados, os desvios, o cuidado exagerado nas palavras quando escondia algo, a agonia que transbordava de seus olhos quando algo o perturbava em silêncio.
Mas ali não havia nada disso. Só o medo.
E não era por ele.
A mão dela subiu, quase sem perceber, repousando sobre o ventre.
Um gesto automático. Instintivo.
Talvez... só dessa vez pudesse ceder.
O pensamento veio inteiro. E por um segundo, ficou.
Atrás deles, um estranho e repentino som.
Baixo. Arrastado. Quase inexistente.
Mas errado.
Anahí parou, Alfonso também.
O ar mudou de densidade entre os dois.
Não houve troca de palavras. Não precisava. O corpo dele já tinha entendido antes da mente acompanhar.
— Você ouviu... — Ela começou, virando levemente o rosto na direção do som. Mas a mão dele fechou no braço dela. Firme, contendo aquele impulso.
Alfonso: Volta pra mesa — Disse, baixo, direto. O olhar dele não tinha dureza, tinha precisão.
Anahí: Alfonso... — Tentou, suspirando.
Alfonso: Fica com o Arthur e Annabelle — Continuou, o rosto apontando levemente o caminho pelo qual ela devia seguir. Agora havia urgência.
Ela sustentou o olhar dele por um instante a mais, avaliando. Medindo. Pesando o que estava em jogo.
Então assentiu, sem discussão. Era o que precisava ser feito por ele naquele momento.
Se virou e começou a caminhar de volta, mas os passos desaceleraram sem que ela percebesse. Algo dentro dela já estava alerta demais pra simplesmente ignorar.
E ainda assim... ela foi, cruzando a porta que separava aquele corredor do movimentado pub.
Alfonso esperou até que ela sumisse porta a fora, que estivesse na área dominada por Arthur, em segurança.
Só então se moveu.
O silêncio ali atrás parecia mais espesso, como se o som do pub não conseguisse atravessar aquelas paredes. Restava apenas o som da própria respiração — controlada, mas mais presente do que deveria.
Um passo, depois outro. De forma lenta, quase meticulosa, como uma sombra.
O corpo levemente inclinado, atento, absorvendo cada detalhe ao redor. A madeira sob seus pés, o ar frio vindo do fundo, as sombras desenhadas de forma irregular nas paredes.
O som não se repetiu, e isso só piorava tudo.
Seu olhar se voltou com urgência para o final do corredor, a porta batendo com uma força desproporcional.
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Crime e desejo
FanfictionNão se pode ter tudo na vida, e era sobre isso que refletia naquele momento. Mas era exatamente isso o que desejava. A ambição era inimiga da perfeição, assim como a pressa. E pressa, era algo que nenhum dos dois tinha naquele momento. Afinal, crime...
