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TH.

No momento em que soube que meu filho não tava mais com vida, fiquei mal pra caralho. Nunca perdi um filho antes, e o fato de que ele nem chegou nascer torna tudo mais pesado. Tô cheio de ódio!

Já induziram o parto pra retirar a criança, e quando eu vi a foto dele todo pequeno e inocente, ainda nem dava pra identificar com quem ia parecer. Fiquei malzão! Nem pude tá presente no hospital, a vida que levo não permite. Ingrid já é carente pra caralho em questão de família, minha coroa que tá com ela lá dando suporte, mas tô ligado que não é a mesma coisa.

— Manda fechar tudo, comunidade tá de luto pelo filho do TH! — parceiro que fecha comigo aqui na favela falou

— Manda fechar nada não! Independente da minha vida pessoal, os moradores da comunidade não têm nada a ver. Mal virei frente na favela e já vou oprimir morador? Vou nada! — falei sério e levantei. — Vou brotar em casa, Ingrid tá chegando — apaguei o baseado

— Vai tranquilo, Deus sabe todas as coisas! — apertou minha mão, concordei

Parti pra casa, a mente a mil, pensando em várias besteiras. Filho é sagrado, e os meus sempre foi minha prioridade. Tava feliz pra caralho com a chegada da filha que a Monique tá esperando, a menina que eu sempre quis. Aí de repente aconteceu essas paradas da Ingrid perder nosso filho, aí é foda.

Cheguei em casa, nem precisei chamar, a porta tava aberta, me esperando, tudo em silêncio. Ingrid encolhida no sofá, olhar perdido, cabelo preso de qualquer jeito, vestida com a mesma roupa do hospital, o rosto inchadão, como se tivesse chorado o dia todo. Minha mãe tava sentada do lado dela, quando me viu, levantou devagar e me abraçou.

— Ela tá muito abalada, filho... mais do que eu achei que estaria! — falou baixo pra mim

Respirei fundo e fui até Ingrid. Me abaixei na frente dela, ela olhou pra mim devagar.

— Eu ouvi o coraçãozinho dele na última consulta, Nathan! Tava batendo tão forte, nem parecia que algo podia dar errado — disse querendo chorar de novo, neguei com a cabeça

— Tenho nem palavras pra consolar você, papo reto! É como se tivesse tirado uma parte de mim também! — fui sincero

— E o quartinho dele? As roupinhas,  sonhava com ele brincando ali, com a gente dando banho, dando risada... tudo isso agora é só um vazio. Eu não sei o que fazer com isso, com os planos que eu fiz e agora não existe mais — as lágrimas descendo firme pelo rosto dela, meu coração apertou

— Eu sei, Ingrid... Eu também imaginei ele correndo pela casa, brincando com Enzo, a gente fazendo tudo junto... Tava sonhando com o moleque. Só que por mais difícil que seja, nós vai ter que aprender a lidar com essa dor. Não vai ser fácil, tô ligado! Mas a gente vai encontrar um jeito — ela passou a mão no rosto, tentando enxugar a lágrima, mas nada fazia ela parar de chorar

— Vocês prederam um filho, e eu perdi um neto! Sei que não existe palavra no mundo que vá confortar essa dor que nunca passa, mas com o tempo diminui, Deus sabe de todas as coisas! — minha coroa falou dando um apoio

Metade do dia foi assim, Ingrid tava reagindo a tudo pior do que eu esperava, teve que dopar de remédio pra ela conseguir dormir. Subi pra laje pra fumar um, só assim pra conseguir esfriar a mente. Espero que a vida não cobre meus erros tocando em meus filhos, fiquei com vários pensamentos estranhos.

 Espero que a vida não cobre meus erros tocando em meus filhos, fiquei com vários pensamentos estranhos

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