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TH.

— Boa pra nós! — um dos frente da facção falou me cumprimentando, peguei na mão dele — Maior burocracia pra tu brotar aqui né, rum — brincou, papo de uns 10 segurança dele armado atrás de nós

— Burocracia nenhuma, assim que me convocaram eu vim po, não tinha como fazer essa desfeita! — ele riu

— Então, TH, baile rolando solto na comunidade, mas te chamei aqui porque é o seguinte, tu tá ligado que não sou de ficar dando as caras assim, sai da cadeia tem pouco tempo e não posso me arriscar. — falou sério encarando aquela vista privilegiada pra caralho do alto da favela — Mas tô ligado na sua caminhada, sei que você é braço direito do mano Don Juan lá no Jaca a um tempo, ele te colocou na gerência, e você como, vem se destacando no tráfico a cada vez mais. — concordei com a cabeça

— Nem me vejo em outro lugar, só me vejo traficando dentro da minha favela, meu destino final é esse! — fui sincero

— No tráfico só cresce quem se destaca, e você é diferenciado, sempre foi, tu sabe! — me encarou — Então irmão, diante a isso, é o seguinte...nós perdemos o parceiro que comandava a favela aqui na última operação que teve. E por mais que seja uma coisa provável, nós nunca espera que vai acontecer, e por esse motivo a favela tá sem linha de frente, como geral já sabe. — concordei quieto, ainda sem entender. — O papo que eu quero te dar, é que sua jornada como gerente acabou aqui. Quero você de patrão comandando ao meu lado e do Don! Comando da rocinha é seu po. E aí, tu acha que tem peito pra isso? — jogou a bomba encima de mim, encarei ele surpreso

— Ih, que isso! De patrão, eu? — perguntei desacreditado, ele concordou sério

— A favela tá pronta pra um novo comando. E eu sei que tu é o nome certo pra isso. Vai deixar passar ou vai vestir a farda de patrão de vez? — o som do baile sumiu por um instante. Tudo ao redor pareceu ficar em silêncio. Respirei fundo, pensativo pra caralho, uma vez chefe, não vai ter mais volta.

O tráfico me deu tudo o que o mundo me negou. Me deu respeito, nome, moral. Já o sistema nunca me deu nada. Quem me alimentou foi o crime. Quem cuidou da minha mãe, minha irmã, e sustenta meu filho é o dinheiro sujo. Então é isso. Se pra ser alguém eu tive que ser bandido, então eu sou. E se um dia eu cair, que seja de pé, com o nome limpo na boca dos meus, com a certeza de que não fui mais um, mas alguém que fez história na comunidade, e honrou a facção até o final.

Uma vez chefe, não tem mais volta. Não tem como deixar de ser patrão e voltar pra ser gerente. O jogo muda, os inimigos aparecem, as pessoas te olham de outra forma.

— Fechou lá, o legado é meu agora então! — falei firme, ele apertou minha mão rindo

— Agora é com você! — ficou todo bobão ele, sempre tive moral, sempre soube que no final, eu chegaria até aqui, e cheguei.

Só alegria, nós voltou pra o baile, foi tiro pra o alto, os parceiros me abraçando. A sensação de felicidade por ter o comando da favela tava estampado em meu rosto, mas ao mesmo tempo um sentimento estranhão.

— É ele, pô! O novo patrão da Rocinha! — Social gritou levantando o fuzil

— TÁ MALUCO, O HOMEM TÁ NO PODER! — outro menor falou chamando atenção do baile inteiro, geral parou

No meio daquela loucura, eu permaneci calmo. Com copo na mão, disfarçando a adrenalina que ainda batia no peito. Porque eu sabia... alegria é essa que passa rápido. Hoje tem baile, amanhã pode ter operação. Hoje eu tô comemorando, mas amanhã pode ser que falem do meu nome com saudade.

Meus olhos foram passeando por cada canto do baile, deu um estalo na mente do dia que eu trouxe a Monique pra curtir um baile aqui. Nem entendi o motivo desse meu pensamento, mas depois de hoje, que a Camila disse que a filha que ela tá esperando é menina, meu pensamento só tá me levando a ela.

Meu ego sempre foi alto, mas orgulhoso nunca fui, só segui meus pensamentos e mandei uma mensagem.

Nathan: quero te vê
Nathan: tá afim de brotar na Rocinha?
(mensagem visualizada)

Fiquei ali paradão tentando disfarçar. O poder, o respeito que eu tava comemorando, a sensação de que a favela agora tava sob o meu comando... Mas minha mente não parava de girar. Monique, a filha dela... minha filha... tudo me fazia questionar. Ela não respondeu, fiquei cheio de ódio, isso me incomodou pra caralho, que eu nem soube disfarçar. E se essa filha for minha?

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