Monique.
Cheguei em casa umas sete da noite com meus pés doendo horrores depois de um longo dia de trabalho lá no bronze. Já estou nos cinco meses de gestação, e tô cada vez mais cansada, pesada, sensível... parece que tudo me afeta em dobro agora.
Era quase meia-noite, minha mãe tinha ido dormir. Camila tá morando aqui em casa até arrumar um canto pra ela, isso se ela não voltar com o Social antes, né. Enfim... colocamos um filme de romance pra assistir, tava chovendo bastante, aquele clima perfeito pra ficar quieta, deitada no sofá. Cami acabou dormindo antes do final do filme, peguei o controle e fui trocando de canal sem nem prestar muita atenção... até que parei na Globo.
Plantão da Globo: aquela vinheta me gelou o estômago, o coração acelerou sem motivo, como se meu corpo soubesse antes da minha cabeça o que tava por vir.
Mega operação na Rocinha: polícia mira novo chefe do tráfico.
A imagem aérea da comunidade apareceu na tela, helicópteros sobrevoando, viaturas cercando as entradas. Eu sentei no sofá num pulo, o coração batendo na garganta. A voz da repórter seguiu: Nathan da Silva Cruz, conhecido como TH, é o novo alvo da polícia. Acusado de chefiar uma das principais facções criminosas da região, TH estaria escondido na mata da Rocinha enquanto seus comparsas enfrentam as forças de segurança.
Minhas mãos gelaram, meu peito apertou, senti o mundo girar por um segundo. As palavras da repórter se embaralhou na minha cabeça, fiquei ali, paralisada, tentando entender se aquilo era real. Meu olhar não desgrudava da TV, a chuva engrossava lá fora, os trovões estouravam no céu e tudo parecia parte de um filme de terror, só que eu era parte do roteiro.
— Fontes afirmam que o criminoso conseguiu fugir para uma área de mata e pode estar tentando se esconder em outra comunidade... — completou a repórter.
Desliguei a TV num impulso, o controle quase caiu da minha mão. O silêncio da casa ficou ainda mais pesado com a tempestade lá fora. Fiquei parada, olhando pro nada, com o coração martelando no peito, tentando assimilar tudo. Nathan tem um coração bom, no fundo eu sei que tem. Mas se perdeu no meio dessa guerra, dessas escolhas erradas, e agora tá nisso: sendo caçado, virando manchete de plantão da Globo. E eu? Grávida, cansada, com medo... e com o coração em pedaços.
De repente, um barulho alto veio do quarto, tipo um estalo na janela, travei na hora. Achei que fosse o vento...mas foi diferente. Fui andando devagar até o corredor, o som da chuva abafando meus passos, quando empurrei a porta do meu quarto, levei um susto.
— Monique — a voz dele saiu baixa
Meu coração acelerou, pisquei duas vezes pra ter certeza que não era coisa da minha cabeça. Mas não era. Nathan estava ali todo sujo de sangue, com a roupa molhada, um fuzil enorme atravessado nas costas, o olhar assustado.
— Você tá maluco? — falei em choque — Entrando aqui como se não fosse nada, você tem ideia do que tá fazendo? A polícia tá atrás de você, você tá botando a minha vida em risco, da minha mãe, a da Camila, e principalmente a da nossa filha! Meu Deus, eles vão vim aqui atrás de você...sai daqui agora — empurrei ele, desesperada
— Eu acabei de matar um deles, e não tenho pra onde ir! Preciso ficar aqui nem que seja só essa noite. — ele disse meio inquieto, desconfiado, fechando a porta do quarto, trancado a janela, na maior cara de pau
— Você matou um policial, Nathan?! — minha voz saiu desesperada — E vem se esconder na minha casa? Você perdeu completamente a noção, eu tenho certeza que você me odeia! — neguei com a cabeça andando pra lá e pra cá, ele tirou o fuzil das costas e jogou em baixo da cama, se virando pra mim
— Fala baixo! Quem é que tá aqui em sua casa? — perguntou meio desconfiado — Eu tô baleado, pensei que não, mas o tiro pegou de raspão em mim! — disse perdendo um pouco da firmeza na voz, levando a mão até o ombro
Vi quando ele fechou os olhos com força, mordendo os lábios pra não gritar de dor, e ali naquele instante, por mais que meu coração estivesse em guerra... algo dentro de mim se partiu.
A raiva deu lugar a uma preocupação que eu não queria sentir, mas que veio como um reflexo, como se meu corpo lembrasse que antes de tudo ele é o pai da minha filha. Ele ainda é o Nathan, o meu Nathan, ou pelo menos o que sobrou dele.
— Você pode ficar aqui essa noite, mas amanhã cedo você vai embora! Se minha mãe souber disso ela vai me matar — falei num tom baixo, contrariando tudo que a razão gritava dentro de mim
Ele assentiu com a cabeça, exausto, sem dizer uma palavra. Fui até o banheiro, peguei a caixa de primeiros socorros e uma toalha limpa. Quando voltei, ele ainda estava sentado ali, a respiração pesada, os olhos fechados como se o simples ato de estar acordado já fosse demais.
O mais irônico é que quando as coisas apertaram, ele correu justo pra mim. Esse seria o momento propício para que eu virasse as costas e mandasse ele embora. Era o certo, era o seguro, era o que qualquer pessoa em sã consciência faria. Mas não consegui.
*não esqueçam do voto e do comentário de vcs❤️
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Intensidade.
Ficción GeneralQueria que tivessem dito à menina doce que fui, que seu coração era grande, e por isso sofreria. Que muitos a amariam menos do que ela merecia ser amada, e que, por isso, não deveria aceitar migalhas. Que perderia pessoas, e tudo bem, desde que não...
