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Monique.

Limpei a ferida e fiz um curativo nele do jeito que eu achava que estava certo. Não tenho costume de fazer essas coisas, e também tô muito chateada com ele por tudo, então isso influenciou bastante. Obriguei Nathan a tomar um banho pra tirar aquela roupa molhada e cheia de sangue. Peguei uma camiseta e um short dele que ainda estavam aqui em casa há meses, da época em que a gente ainda ficava, nem sei dizer quanto tempo atrás, mas foi logo quando a gente se conheceu.

Enquanto ele tomava banho, fui preparar onde ele ia dormir. Peguei umas cobertas, ajeitei um colchão no chão do quarto, porque se ele acha que vai dormir do meu lado como se nada tivesse acontecido... coitado! Só se fosse em outra dimensão.

— Ainda nem acredito que você tá grávida, papo reto! — me abraçou por trás alisando minha barriga, me pegando completamente de surpresa e desprevenida

— Sai, Nathan! — falei dando um empurrãozinho de leve com o cotovelo, mas ele nem se mexeu

— Ih, qual foi? A filha é minha, nossa, de nós dois, ou fez com o dedo, você? — disse no meu ouvido. Me afastei revirando os olhos

— Agora é sua, né? Você é muito cínico, que isso! Tá pensando que só porque deixei você dormir aqui que tô de boa contigo? Não tô mesmo! — falei séria cruzando os braços — Já fiz a cama pra você deitar! — apontei pro chão

— Ih, eu vou dormir aí? — olhou pro colchão e depois pra mim — Vou nada! Vou dormir na cama contigo — se deitou

— Vai nada, Nathan! Levanta! — puxei o travesseiro debaixo dele, mas o infeliz só deu risada e me puxou pelo braço, me fazendo sentar

— Para de show, vai — ele falou baixo com aquele tom calmo que me dava mais raiva ainda. — Só quero ficar um pouco contigo... nem que seja assim, brigando.

Fiquei parada por uns segundos, sentindo o calor da mão dele no meu braço misturado com a lembrança de tudo que a gente já viveu. E mesmo assim, não cedi.

— Você tá confundindo as coisas — falei firme, tentando me soltar — Isso aqui não muda nada! Eu só te ajudei porque você apareceu desesperado, não porque ainda sinto alguma coisa — menti

— Sente sim, pô, tá na cara. Tu só não quer admitir — falou com aquele ar de certeza que me tirava do sério — Tá chateada comigo por causa do lance com aquela tua amiga lá... mas fechou lá, esquece isso! — pegou a coberta e se cobriu, como se fosse dele

Fiquei parada olhando pra ele. Idiota, cínico, cheio de si. Que ódio! Resmunguei baixinho e fui até o interruptor. Apaguei a luz, me enrolei num outro cobertor mais fino e deitei virada pro lado oposto da cama, só pra não dar o braço a torcer. Nem deu dois minutos e ele já tava se aproximando de mim.

— Nathan, não começa! Que chatice, cara — reclamei, tentando me afastar

— Calma, quero ver se ela chuta, eu nunca senti! — ele sussurrou, deslizando a mão devagar até a minha barriga. Ficou ali, parado, como se aquilo fosse o único lugar do mundo onde ele queria está — Essa menina sempre foi um sonho meu, sempre quis ter uma menina! — balancei os ombros indiferente


— Então vai lá sentir o filho da outra chutar, ué. Ela também não tá grávida? — debochei

— Ela perdeu, tem uns dias já! — falou baixo, fiquei quieta por uns segundos, sentindo um misto de raiva, pena e... sei lá o quê — Mas eu tô aqui, se tu quiser... eu largo tudo, de verdade. Largo o que for, e fico contigo, crio a Merliah contigo. Só nós dois! — me virei pra ele, o encarando mesmo no escuro

— É mesmo? Então prova. Larga ela e fica comigo — falei só pra testar, afinal eu jamais me submeteria a isso

Ele escutou, mas não disse uma palavra, nem tentou se explicar, nem nada. Eu já esperava. Pra quem sabe ouvir, o silêncio é grito! Nós nunca vamos dar certo juntos, ele dificilmente cumpre com o que fala.

Por fim, a gente dormiu daquele jeito ali: nossos corpos juntos, mas o coração distante. Não rolou recaída, nem nada.

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