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Monique.

— Felipe, bom dia! — falei ofegante entrando no escritório dele

— Tentei impedir, mas ela foi mais rápida! — a secretária dele disse atrás de mim, sem graça

— Pode deixar ela entrar, Ariane Obrigado. — respondeu Felipe sem esconder a curiosidade na voz. Ele se levantou lentamente da cadeira, os olhos fixos em mim. — O que aconteceu? — perguntou, fechando a porta

— A gente precisa conversar... sobre aquele dia que você me viu beijando o pai da minha filha — falei séria

— Não precisa explicar nada. Você tá grávida dele e... — começou, mas eu o interrompi

— Não! Isso não significa nada. Eu nem esperava aquele beijo. Ele simplesmente me beijou, sem mais nem menos. Eu sei que é difícil acreditar mas se estou aqui tentando te explicar, é porque é verdade! — falei firme

— Quem é ele? Quem é o pai da sua filha? — perguntou, se aproximando de mim

— Nathan. O pai da minha filha se chama Nathan... Ele é o chefe da Rocinha. Não era, mas se tornou recentemente — fui sincera. Ele me encarou, ainda processando

— Nathan... — ele repetiu o nome, ainda sem acreditar. — O chefe da Rocinha? Como você se envolveu com esse cara? Caralho! — exclamou passando a mão no rosto

— O que você tá fazendo aqui no Rio? Você disse que iria embora. Desistiu? — perguntei, ignorando completamente a pergunta dele

— Eu decidi ficar mais um pouco por você, mas desisti. No mesmo dia que fui te ver você tava lá beijando o... Nathan, né? — me encarou

— Felipe, eu já disse que aquele beijo não significou nada! — insisti sentindo o peso das palavras dele me cortar por dentro — Eu não estou com o Nathan. Não existe um “nós” entre mim e ele. Ele é o pai da minha filha, sim, mas isso é tudo. Eu realmente estou tentando deixar isso pra trás! E eu pensei que você não se importasse com o fato de que eu estou grávida — falei chateada

— Eu não me importo com a sua gravidez, mas... sabendo de quem é sua filha, tudo muda! O cara é o chefe de uma comunidade dominada pelo tráfico. E se ele ainda gostar de você? Olha o perigo que eu tô entrando — disse, com a voz carregada de frustração

— Ele não gosta de mim, pode acreditar — falei baixo, sentindo um nó apertar minha garganta por ter que admitir isso. — E é por esse motivo que estou aqui. Jamais colocaria você em risco! Eu realmente gostei de você e quero me permitir te conhecer melhor. Não é isso que você queria? — arqueei a sobrancelha

— Era isso que eu queria... — ele disse, enfim — Mas eu não fazia ideia do pacote todo. — Soltou um riso sem humor, abaixando o olhar — Você é incrível, Nique, de verdade! Mas isso tudo... é muito maior do que eu imaginava.

— Eu sei — sussurrei — E mesmo assim eu tô aqui, me abrindo, m expondo...porque você me fez acreditar que talvez eu ainda tenha alguma chance de ser feliz, apesar de tudo. Só preciso saber se você também acredita nisso.

— Eu só preciso de um tempo pra entender tudo isso... — disse devagar — Não tô dizendo que tô indo embora. Só tô dizendo que preciso pensar.

— Tudo bem! Mas por favor, não demore demais. Às vezes, o tempo só complica o que podia ser simples — respondi tentando segurar a decepção — Eu preciso ir, ainda tenho que trabalhar hoje.

Felipe apenas assentiu com a cabeça, mas não disse mais nada. Seu olhar acompanhou cada passo meu até a porta, como se quisesse me dizer algo, mas não encontrasse coragem.

Girei a maçaneta, hesitei por um segundo. Parte de mim queria que ele me chamasse de volta, dissesse que ia tentar, que não precisava de tempo nenhum, mas isso não aconteceu. Sai de lá muito frustada.

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