Capítulo Dezesei

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Um mês depois

Isis on

Nesses últimos meses, algumas coisas mudaram, mas não aquelas coisas profundas. O salão e a loja estão indo bem, e nada de invasão no morro. O Terror e a Vg estão preocupados — eles sabem que é difícil as coisas ficarem assim.

Eu tava fazendo carinho na cabeça do Ravi enquanto ele dormia. Levantei e fui pro quarto da Virgínia, que estava deitada na cama.

Isis:
— Tá pensando em quê?

Deitei com a cabeça no peito dela.

Vg:
— Na vida.

Respirou fundo.

— A vida é como um livro.

Isis:
— Como assim?

Levantei do peito dela, e ela sentou na cama.

Vg:
— Todo livro tem seu começo, meio e fim. Assim como a vida. Se você ler a sinopse de um livro e estiver escrito: Nasci em uma família rica que mora na zona sul, tenho olhos claros, sou branca. O que vem na sua cabeça?

Pensei um pouco e respondi:

Isis:
— Vida boa.

Ela concordou.

Vg:
— Agora: Nasci na periferia, sou negra e sou LGBT. O que vem na sua cabeça?

Nem precisei pensar muito.

Isis:
— Uma vida difícil e com preconceito.

Ela concordou novamente.

Vg:
— Viu? O livro de um vai ter muito mais capítulos que o do outro, e conteúdos totalmente diferentes.

Escutei o barulho de foguetes sendo lançados no ar e olhei pra ela.

— O meu livro tá acabando agora. Ainda tenho alguns capítulos, tô chegando no meio, mas pra chegar no final preciso construir minha família e ainda levar alguns tiros.

Falou pegando o colete e a arma.

Isis:
— Vou pegar o Ravi.

A Virgínia tinha me ensinado tudo o que fazer. Peguei o Ravi no colo junto com a coberta e o ursinho, e levei pro cofre. Abri a porta, deitei ele na cama e saí. Dei um beijo na Virgínia e voltei pro cofre, trancando a porta.

Tinha câmeras na casa toda; o computador onde a gente via as câmeras era ali no cofre.

Os tiros começaram a ficar mais altos, e o Ravi acordou assustado.

Ravi:
— Minha mãe! Cadê minha mãe, anjinho?

Acordou já chorando. Sentei na cama e o abracei.

Isis:
— Ei, fica calmo, tá bom? Agora ela tá aqui. Temos que ficar quietinhos, tá?

Beijei a cabeça dele e dei um pouco de água.

---

Vg on

Pulei em uma laje e me abaixei, atirando. Deixei dois vapores cuidando da minha casa por causa do Ravi e da Isis — mesmo estando no cofre, não é um lugar que a gente pode dizer que é 100% seguro. Se estourar umas sete granadas já era, eles pegam os dois.

Eles estavam invadindo com tudo. Como eu pensei, era soldado de três morros juntos e meu agente um ainda. Estávamos fracos.

Fui pulando de laje em laje até chegar num barraco abandonado pra ligar pro meu vô.

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Ligação on

Vg:
— Cadê a merda do apoio?

Caveira:
— Não dá mais nem oi pro seu vô, então não vai ter apoio dessa vez.

Vg:
— Como assim, porra? Você só pode tá louca. A gente vai todo mundo na roda, cara!

Caveira:
— Não posso ajudar, não vou colocar minha mão no fogo pelo Chapadão. Ajuda quem quiser.

Vg:
— Ótimo, isso aí. Manda sua família pra força.

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Ligação off

Filho da puta, ele deve ter fumado. Alguém abriu a porta com tudo. Já saquei a arma.

Terror:
— O que o filho da puta disse?

Ele entrou com sangue no braço.

Vg:
— Não vai botar a mão no fogo por ninguém do Chapadão, cada um por si. Pedi ajuda individual.

Disse já puta.

Terror:
— Velho desgraçado.

Ele pegou o celular e começou a falar com alguém no telefone. Suponho que seja o Bl, dono do morro da Pedreira, que é um cuzao, mas a tropa dele é forte e também é perto, e ele sempre nos fortalece.

Enquanto isso, a bala comia solta lá fora.

Vg:
— Vai, porra!

Falei depois que ele desligou o celular.

Terror:
— Ele vai colar agora, bora sair lá pra fora.

Voltamos pro fogo cruzado que tava lá fora. Tinha bastante gente caída no chão.

Aqui na favela tem uma regra: se algum vapor bater na sua porta, você tem que ajudar, senão pode ser cobrado por vacilo.

Não demorou muito e a tropa da Pedreira chegou. Ali já era mais de duas da manhã de troca de tiro.

Já tava amanhecendo e a bala ainda corria solta. Eu tava impressionada, meus olhos já estavam pesados de sono e nada de acabar.

Meu pai falou que era pra todos que estavam vivos subirem pra praça, que a gente ia descer já metendo bala, espancando eles.

Passei na Boca do Norte, peguei uma mochila com balas e uma escopeta que lança granada — ou eles saem por bem ou essas porra vão sair por mal.

Peguei umas trinta granadas, coloquei na mochila e saí indo em direção à praça.

Já tinha bastante vapores ali.

Js:
— Tá bem, loca? Cheirou orégano, filha da puta?

Falou me olhando com a escopeta.

Vg:
— Essas porra vão sair do nosso morro, caralho!

Coloquei três granadas na escopeta, com o dedo no gatilho.

A tropa toda já tava na praça. A gente se separou: alguns nas lajes fazendo a varredura nos becos, o resto no chão fazendo eles recuarem.

Descendo todos os vapores, atirando, e eu só esperando. De vez em quando soltava as granadas.

Deu mais ou menos uma hora e meia, todos já tinham recuado e foram soltos os fogos que a gente tinha ganho.

Aquilo sim foi um alívio.

Eu fui pra casa descansar — que nada!

Fui ajudar os vapores a limpar o morro. Fomos invadindo os barracos abandonados pra ver se tinha alguém do outro morro.

Já era quase meio-dia, eu estava morrendo de sono, né? Mas tinha que ir dar o patrocínio pros familiares dos vapores que morreram.

Ainda meu pai me falou que à tarde a gente ia pro morro do Dedé falar com o cuzao do meu vô.

Hoje eu não durmo.

Já tinha falado com a Isis, que disse que o Ravi tava louco perguntando de mim.

libertinaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora