VG on
Passou um mês desde o dia da pizzaria. Poucas coisas mudaram. Teve bastante invasão no morro. A Ísis está estranha, mas não fala nada. Faz um mês que nem eu, nem ninguém, sabe o que é um sorriso da Barbara. Mas desde que o Tzinho entrou correndo com ela no hospital, gritando para alguém salvar o filho dele e a mulher dele, eu sempre tenho pesadelos com essa cena. E as palavras da Barbara não saem da minha cabeça:
"Eu prometi que morreria por você e morri, mas estando viva, igual um zumbi."
O Tzinho tenta ser forte — não só por ele, mas por ela também. Já vi ele chorando muitas vezes por conta disso, e entendo: deve doer muito perder um filho.
Eu estava saindo da boca, ia passar para ver a Sereia hoje. Liguei a moto e fui para a casa do Tzinho, porque ela está ficando lá desde o mês passado. Cheguei, estacionei a moto, tirei a chave e entrei. Ela estava na sala, deitada.
VG – Como está minha Sereia?
Abracei ela apertado e fiquei assim por um tempo.
Sereia – E como estão as coisas com a Ísis?
Neguei, rindo.
VG – Vim falar da Ísis, não vim ver como você está, bixinha.
Sentei do lado dela no sofá, ela deitou a cabeça no meu colo, e eu comecei a fazer carinho na cabeça dela.
Sereia – Eu tô bem. Já vou voltar pro meu posto.
Neguei.
Sereia – Sério, VG, eu já tô ótima. Tô pronta pra voltar.
VG – Sei não, em Barbara. Mas por que você ficou tão disposta?
Ela sentou, me olhando com os olhos cheios de lágrima.
Sereia – Ele quis tanto vir pra ficar comigo que não esperou nem eu nem ele estarmos prontos. Tentaram pegar ele de volta, mas ele não quis ir. Tiraram meu bebê à força de mim, mas quando nós dois estivermos prontos de novo, ele vai voltar pra mim e eu vou pegar o menino no colo e dar muitos beijinhos.
Ela limpou o olho dela e eu o meu.
VG – Isso mesmo, morena.
Abracei ela.
Sereia – Então pode me colocar dentro, porque amanhã mesmo eu tô de volta.
Concordei, fui na cozinha, peguei um copo de água e sentei de novo no sofá.
Sereia – A Ísis tá do mesmo jeito.
Concordei.
Sereia – O que será que aconteceu com ela?
Ela ficou um tempo quieta, olhando para a porta.
VG – Que foi?
Ela olhou pra mim.
Sereia – Tira um dia de folga, fica com ela, você, ela e o Ravi. Ou então eu fico com ele.
Concordei.
VG – Vou fazer isso mesmo.
Meu celular tocou — era a Ísis.
Ligação on
Vida❤: Oi, nenê! Eu vou sair com a Eloá pra ver o negócio da faculdade.
VG: Tá bom, cuidado pra não levar vapor na cola.
Vida❤: Precisa não, eu vou e volto rapidinho.
VG: Vai com dois, cuidado. Beijo.
Ligação off
Almocei na casa da Sereia e depois voltei pra boca. O Ravi sai da escola só às quatro da manhã. Tem aula de manhã, e à tarde tem futebol, parquinho, cinema, dependendo do dia. Ele gosta bastante. Arrumei tudo que tinha pra arrumar pra não precisar voltar amanhã. Meu radinho tocou.
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Vapor: Chefe, a Anjinho parou numa clínica. Tá quase uma hora aqui.
VG: Beleza, só fica de olho.
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Terminei de arrumar minhas coisas e fui pegar meu filhote na escola. Subi na moto e fui pro asfalto — isso que era foda, ir buscar o menino de moto. Parei na frente da escola e fiquei esperando ele uns dez minutos, e nada. Já fiquei grilada, desci da moto e fui pro portão.
XX: Olá, boa tarde. A senhora é a mãe do Ravi?
Concordei.
XX: Ele está na diretoria.
Nem respondi, só entrei e fui para a sala da diretora. Cheguei lá e tinha um menino com um pano no nariz. Abri a porta entrando e tinha uma mulher falando alto com o MEU FILHO.
VG: Que porra é essa? Pode abaixar o seu tom de voz? Acha que tá falando com quem?
O Ravi olhou pra mim, veio correndo e pulou no meu colo, abaixando a cabeça no meu ombro. O meu filho, o Ravi, é quieto pelas coisas que aconteceram com ele. Então ele só fez alguma coisa se alguém mexeu com ele.
VG: E a senhora não ligou pra mim? Porque eu sou a mãe dele. Tinha que ter ligado pra mim.
A diretora concordou.
XX: Seu filho, esse favelado com as mães sapatão, bateu no meu filho só por ter falado a verdade. Meu filho não é obrigado a ouvir o seu filho falando que mora em uma favela e tem duas mães.
Olhei pra ela e ergui a sobrancelha.
VG: Tudo bem. Eu reconheço o erro do meu filho. A felicidade alheia incomoda, e culpo o meu filho sim. Porque quando alguém fala da nossa família ou do nosso morro, não é pra dar só um soquinho no nariz, é pra pelo menos quebrar um braço. Amanhã eu volto pra pegar os papéis da retirada do meu filho da escola.
Saí da sala com o Ravi e fui para minha moto.
Ravi: Mamãe, a senhora tá brava comigo?
Neguei com a cabeça.
Ravi: A Anjinha vai ficar triste comigo, mamãe.
Ele começou a chorar. O Ravi se importava muito com isso.
VG: Vai não, filho.
Coloquei ele no chão e chamei um dos vapores que estavam no carro.
Vapor: Sim, chefe.
VG: Leva ele pra casa da Sereia, você e mais três. Deixa um pra ir comigo na moto. Pode ir, filho. Se comporta, tá bom?
Ele concordou e foi andando com o menino. Saiu um vapor do carro e veio até mim. O carro saiu indo pro morro e os dois vapores que estavam na moto vieram também.
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libertina
Ficção AdolescenteCorre menor porque no morro do chapadão não tem dó e muito menos perdão Se você roda não abre o bico porque se dedurar vai aparecer morto e mãe vai chora em cima de caixão
