Vg on
Tava na varanda da minha casa com o Ravi no colo. A Bárbara tava na cozinha, arrumando umas comidas. O Tzinho cuidava da churrasqueira e o Orelha tinha acabado de chegar, tava colocando as cervejas na geladeira.
Orelha:
— Tô achando essa merda o maior vacilo.
Sentou do meu lado, bebendo.
Vg:
— Tá. Fica quieto.
Ele concordou, rindo.
A gente tava conversando, até a Isis entrar com a outra lá. O Orelha fechou a cara na hora. Como é possível o menino sentir a minha dor desse jeito? A Bárbara ficou puta também, mas sabia disfarçar. Logo ficou aquele climão. A Bárbara levantou, querendo cortar a tensão.
Bárbara:
— Vocês perceberam que eu tô linda igual uma sereia?
Levantou, deu uma voltinha. Tava com uma saia longa azul e um top tomara que caia branco. Pelo menos, fez todo mundo rir.
Bárbara:
— Vg, vamo cantar aquela música? Vamo!
Falei que sim com a cabeça.
Bárbara (cantando):
— Quando eu era criança
Minha mãe cantava pra mim
Uma canção em iorubá
Cantava pra eu dormir...
Vg:
— Uma canção muito linda
Que o seu pai te ensinou
Trazida da escravidão
E cantada por seu avô...
Vg/Bárbara:
— Oro mi má
Oro mi maió
Oro mi maió
Yabado oyeyeô...
Bárbara:
— Essa canção muito antiga
Do tempo da escravidão
Os negros em sofrimento
Cantavam e alegravam o coração...
Vg:
— Presos naquelas senzalas
Dançando ijexá
Aquela canção muito linda
Com os versos em iorubá...
Todos:
— Oro mi má
Oro mi maió
Oro mi maió
Yabado oyeyeô...
Paramos. A galera bateu palmas.
Isis:
— Porra, Orelha, tá assim comigo por quê?
O Tzinho só olhou pra mim e correu até o Orelha, tampando a boca dele.
Tzinho:
— É nada, não. Eu vou ali com o Orelha.
Ele tentou puxar o Orelha, mas o Orelha se soltou.
— Ali eu vi que a merda tava feita.
Orelha:
— Ela quer que eu fale? Então vou falar.
Neguei com a cabeça.
Vg:
— Para, Orelha... eu que vou sair como a errada, de novo, nessa porra.
A Isis olhava sem entender.
Isis:
— E por que será que ela sai como errada?
— Deus, por que ela foi abrir a boca...
Orelha (debochado):
— Vamo começar então, ver quem tá mais errada.
Primeiro: vocês brigaram porque a Isis apanhou da Paula e botou a culpa na Vg.
Depois: saiu do morro mal, levou dois tiros de raspão.
Quando voltou, já tava rolando invasão.
E quem é que queria ir na casa da Isis? Ela.
A Vg foi tentar parar eles, levou mais tiro.
Depois disso: semanas recebendo ameaça que iam pegar você.
O que ela fez?
Escondeu de todo mundo que você era o ponto fraco dela.
A Isis escutava calada.
Orelha (continuando):
— Vocês brigaram porque ela não quis te assumir. Talvez porque mesmo sem assumir, tu já é alvo de muita coisa.
Sobre a Paula? Faz tempo que a Vg só fala com ela pra cobrar droga ou porque ela te bateu.
Isis:
— Agora a culpa é minha?
Orelha:
— Não me corta!
Não tô dizendo que é só tua. Mas bota tudo na balança.
Quer saber por que o morro tava invadido? Por tua culpa!
— Pronto. Agora explodiu.
Meu pai entrou, cortando ele.
Js (com voz firme):
— Ela foi atrás do cara. Entrou sozinha no morro inimigo. Você tem noção disso?
Se levou à força. Sem ninguém do lado.
Eu tava dormindo.
Acordei com ligação dizendo que minha filha tinha dado entrada no pronto socorro com uma facada na costela!
Minha respiração já tava falhando.
Js:
— Ela podia ter levado um tiro na cabeça. Podia ter sido torturada.
Mas ela tirou a sua cabeça da reta.
Matou o cara que queria te matar, mesmo que isso custasse a vida dela.
Ela tinha planejado tudo, Isis.
Tudo!
Tinha alugado lugar, comprado as merdas das alianças.
Tava disposta até a sumir, só pra te proteger com a vida.
E o que você fez? Voltou com outra.
E mesmo assim...
Ela não fez porra nenhuma.
Não te expulsou, não te impediu.
Deixou vocês entrarem na casa dela e não falou nada.
— Eu só levantei e saí dali. Fui direto pro meu quarto.
Quando ia fechar a porta, a Bárbara entrou.
Vg (chorando, abraçando ela):
— Isso não vai acontecer de novo. Foi um deslize...
Bárbara:
— Você lembra o que a gente falava?
Concordei.
Bárbara:
— Você viveria por mim... e eu morreria por você.
Agora eu tô com você, e vou cumprir minha parte da promessa.
Agora você cumpre a sua.
Ela me abraçou apertado. Sentou na cama e bateu na perna, sinal pra eu deitar.
Na cadeia, eu já não aguentava mais. Tentei me matar.
A Bárbara me salvou.
Eu não gosto da vida. Ela ama.
Então ela disse que eu tenho que viver por ela...
E ela morreria pra me proteger.
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Isis on
Eu ainda tava sem reação. Entrei na casa, ia subir pra falar com a Vg, mas a Bárbara parou na minha frente.
Bárbara (fria):
— Melhor não. Ela deitou pra dormir.
E não vai querer te ver pelos próximos dois meses.
Ela passou por mim. Saí da casa. A Giulia me esperava do lado de fora.
Giulia:
— Tá bem?
Neguei com a cabeça, chorando. Ela me abraçou. A gente foi embora.
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libertina
Roman pour AdolescentsCorre menor porque no morro do chapadão não tem dó e muito menos perdão Se você roda não abre o bico porque se dedurar vai aparecer morto e mãe vai chora em cima de caixão
