Capítulo Vinte

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Vg on

Tinha acabado de sair da casa da Isis. Cheguei em casa, fui direto pro banheiro. Tirei a roupa, liguei o chuveiro e comecei a chorar.

“Não é possível... como é que eu consigo fazer tanta merda?”
Eu sei que tô errada pra caramba, admito. Eu sei como é estar no lugar dela, também sou mulher. Mas eu tento de tudo pra proteger ela. Eu sei que quando ela souber toda a verdade, vai ficar tudo mais de boa...

Saí do banho, coloquei um vestido e fui pro quarto do Ravi. Comecei a fazer as malas dele. Escutei a porta da sala abrir e logo a voz do Ravi:

Ravi:
— Mamãe, cheguei!

Desci as escadas e ele veio correndo, pulou no meu colo.

Ravi:
— Que foi, mamãe?

Vg:
— Filho, você vai viajar com a Anjinho pra uma cidade muito bonita. O que você acha?

Sentei com ele no sofá.

Ravi:
— A senhora não vai?

Neguei, passando a mão no cabelo dele.

Ravi:
— Por quê?

Vg:
— A mamãe tem que cuidar de muitos morros, filho. Aí a Anjinho vai cuidar de você, tá bom?

Ele me olhou e concordou.

Ravi:
— Tá bom, mamãe.

Ele beijou minha bochecha e foi pro quarto tomar banho.

Já era três e pouco da manhã. Coloquei uma roupa e fui pro quarto do Ravi. Peguei as malas dele e levei pro carro. Pedi pra um vapor buscar ele. Logo o vapor chegou. Coloquei ele dentro do carro e fui pra boca. Cheguei lá e já tinham cinco vapores me esperando.

Vg:
— Boa noite... ou boa madrugada, não sei. Vamo começar a separar.

Eles responderam “boa noite” e eu continuei:

— Três de vocês vão pelo aeroporto clandestino, o helicóptero já tá esperando. Levem suas armas e as dos parceiros que vão ter que ir sem. Os outros dois vão de avião com ele, mas sem armamento. Entenderam?

Eles concordaram.

— Ótimo. Tudo no sigilo. Podem ir.

Fizeram “toc” comigo e saíram. Entrei no carro e fui pra casa da Isis. Ela já tava lá fora esperando com a mãe e as malas.

Vg:
— Foi mal a demora, hein. Tenho sono pesado, não consegui acordar com o celular.

Saí do carro, coloquei as malas no porta-malas. Dona Vanessa foi no banco do passageiro e a Isis atrás com o Ravi.

Vg:
— Dentro dessa mochila tem dinheiro. Mas qualquer coisa, é só mandar mensagem que eu transfiro.

Olhei pra ela pelo espelho do meio.

Isis:
— Tudo bem. Eu ligo pra você todos os dias pra você falar com ele.

Concordei. Fomos o caminho todo em silêncio. Chegando no aeroporto, tirei as malas do porta-malas. A Isis desceu com o Ravi, que já tinha acordado.

Ravi:
— Tchau, mamãe.

Dei um abraço nele, já segurando o choro.

Vg:
— Tchau, filho. Te amo muito. Boa viagem.

Dei um beijo nele, um abraço na Dona Vanessa e entrei no carro, voltando pro morro.

---

Uma semana depois

Graças a Deus as invasões tinham parado. Eu tava na minha sala conferindo as contabilidades dos morros, até que meu celular tocou. Era a Isis. Nessa uma semana, a gente não tinha trocado nem um “oi”.

Ligação on

Ravi:
— Oiê, mamãe! Tudo bem?

Vg:
— Oi, filho! Como tá aí?

Ravi:
— Tá bem, mamãe. A Anjinho chorou um pouco, mas já tá bem. Eu vou na praia todo dia!

Vg:
— Que bom, filho. Mas por que a Anjinho chorou?

Ravi:
— Ela disse que foi porque a senhora machucou ela...

Isis (ao fundo):
— Meu amor, diz pra sua mãe que depois de amanhã a gente já vai voltar, tá bom? E se a Morango chegar, diz que eu tô no banho.

Vg:
— Quem é Morango, filho?

Ravi:
— A Molango é amiga da mamãe. Elas são iguais você e a mamãe eram antes...

Vg:
— Tá chamando a Anjinho de mamãe, filho?

Ravi:
— Ela deixou... porque todo mundo tem papai e eu não tenho. Daí eu tenho duas mamães e a vovó Vanessa, já que ela é mãe da minha mamãe.

Vg:
— Entendi, filho...

Ravi:
— Mamãe, a senhora ficou triste por eu ter outra mamãe?

Vg:
— Não, filho. Se você tá feliz, eu também tô.

Ravi:
— Mamãe, é segredo, tá? Não conta pra Anjinho. A mamãe disse que vai levar a Molango pra conhecer o morro...

Vg:
— Oi? Como assim?

Ravi:
— Não sei... acho que ela vai voltar com a gente. Agora tenho que ir, mamãe, a Molango chegou. Beijo, te amo!

Vg:
— Beijo, te amo.

Ligação off

Ah, mas ela não tá nem doida de entrar na porra do meu morro.

Saí da minha sala, peguei a moto e fui pra Boca do Norte falar com meu tio. Cheguei, desci da moto e já fui entrando sem bater.

Terror:
— Tem porta, sabia?

Ele tava sentado, fumando.

Vg:
— Sabia. Eu tive que abrir ela.

Olhei com deboche.

Terror:
— Tá se achando muito, hein?

Olhei pra ele, negando com a cabeça.

Terror:
— Motivos especiais?

Vg:
— Nenhum. Meu filho tá chegando e eu não quero que dê merda. Se tiver vapores novos ou moradores, quero a ficha antes.

Nem esperei resposta. Saí da sala, peguei a moto e parti pra minha casa.

libertinaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora