Isis on
A invasão tinha acabado fazia mais ou menos uma hora, mas só passavam as palavras do Js na minha cabeça:
“Fora que quando tem invasão ela pode morrer ou morro inimigo pega ela e tortura.”
Vanessa:
— Se acalma, filha, ela tá bem, pode ter certeza.
Neguei.
Isis:
— Não, mãe, não pode ter certeza. Quem pode garantir que um daqueles tiros não acertou ela?
Levantei e fui sair de casa.
Vanessa:
— Vai aonde, menina?
Isis:
— Ver como ela tá.
Sai de casa e fui em direção à praça. O Terror tava lá junto com outros vapores. Não encontrei nem o Js nem o Tzinho, então fui até o Terror, que estava falando algo sobre fazer ronda no morro.
Isis:
— Desculpa atrapalhar, mas cadê a Vg?
Ele me olhou com um olhar perdido, estranho, que por um momento me fez achar que algo grave tinha acontecido.
Terror:
— Ela levou dois tiros.
Neguei, com os olhos cheios de lágrimas.
Isis:
— Não, você tá confundindo. Eu tô falando da Virgínia, ela tá pegando alguma puta em algum lugar ou tá na casa dela jogando FIFA, e isso ela tá na casa dela.
Ele me abraçou.
Isis:
— Não, Terror, ela não levou nem um tiro. Ela tá bem agora, ela vai me ligar.
Terror:
— Também queria que fosse mentira, loira.
Ali eu não aguentei mais e comecei a chorar mesmo.
Isis:
— Cadê ela? Eu quero ver ela.
Ele concordou, me guiando até a moto dele. Ele subiu, me ajudou a subir e me entregou um capacete. Saímos do morro a mil. Não demorou muito, chegamos no posto da Maré. Entrei e vi o Tzinho sentado, com a mão na cabeça.
Isis:
— Cadê ela, Tzinho?
Parei na frente dele.
Tzinho:
— Tá na cirurgia ainda.
Os olhos dele estavam vermelhos.
— A tiraram na covardia mesmo.
O Js chegou, e eu corri abraçar ele.
Js:
— Ela vai ficar bem, loira. Ela tem que ficar.
Ele sentou do lado do Tzinho, batendo na costas dele.
Terror:
— Como foi, irmão?
Perguntou sentado também. Eu continuei em pé.
Js:
— Foi covardia.
As lágrimas já caiam dos olhos dele.
Js:
— Ela tava indo pra boca, eu não queria que ela fosse pra invasão. Ela tinha acabado de levar um tiro de raspão no braço dando fuga, mas ela teimou e foi. O cara pegou ela pelas costas: um tiro na perna esquerda, outro no braço direito.
Eu já tava chorando.
Js:
— Ela caiu de joelhos na minha frente, o Tzinho foi ajudar ela, e eu atirei no cara e fui ver ela. Ela não chorava, não fazia nada, só mandava a gente relaxar.
Ele soltou uma risada pelo nariz. O Terror já tava com os olhos vermelhos, segurando o choro.
Js:
— Não tava conseguindo contato com ninguém no radinho, daí ela começou a cantar aquelas músicas de doido dela.
Tzinho entrou cantando a música:
Do nada solidão toma conta
Outra noite outro hotel outra conta
Te liguei, você falou que tava pronta
Ver a sua foto na parede me desmonta
Na vida tudo vai
Eu vou voltar, você não vai estar
Quando esse dia chega
Você veio me dizer que não vem
Deixei hoje minha casa arrumada só pra você.
Tzinho sentou do lado do Js de novo.
Js:
— Depois que ela parou de cantar, desceu uma lágrima do olho dela e ela apagou.
Isis:
— Preciso de uma água.
Sai dali indo até o bebedouro.
Depois de duas horas, os médicos vieram.
Doutor:
— Parentes de Virgínia Johnson?
Todos levantamos juntos.
— Ela está bem. Tivemos algumas complicações por conta da bala, mas está tudo bem agora. Ela está no quarto 127. Se quiserem ir vê-la, podem ir, mas ela não pode se estressar.
A médica saiu.
Js:
— Eu vou primeiro.
Todos concordaram.
Vg on
Acordei em uma sala com uma luz forte. Olhei pros lados e vi os aparelhos. Já saquei que tô no posto. Minha cabeça tava doendo muito, parecia que ia explodir. Meu pai entrou com o rosto todo inchado, parecia que tinha chorado por horas.
Js:
— Achei que ia te perder de novo.
Beijou minha cabeça.
Vg:
— O senhor nunca vai me perder.
Ele sentou na cadeira do meu lado e ficou me olhando.
Js:
— Sabe do que eu lembrei hoje?
Neguei.
Js:
— Da Luar e do Ravi.
Meus olhos encheram de lágrimas.
Vg:
— Eu quase morri pela segunda vez e não tinha realizado nem um dos meus sonhos.
Ele deu um sorriso amarelo.
Js:
— Mas você vai, porque consegue fazer tudo que quiser.
Concordei, já querendo chorar.
Vg:
— Tô muito cansada. Podia pedir pro meu tio e o Tzinho virem depois, eu sei que eles estão lá fora.
Sorri. Sempre que vou pro hospital, são eles dois que estão na sala de espera.
Vg:
— Eu sei que o vô não vai.
Js:
— Filha...
Falou todo triste.
Vg:
— Tá tudo bem, pai. Depois ele manda uma cesta de chocolate como pedido de desculpas, fingindo que se importa, e eu fugindo, que desculpo.
Falei olhando um ponto fixo no teto.
Js:
— A Isis tá aí?
Neguei.
Vg:
— Eu sei que não tá. Ela falou que queria que eu morresse com todas as letras.
Meu tio entrou.
Terror:
— Ela tá sim. Ela tá há três horas seguidas chorando, não sei de onde ela tirou tanta lágrima.
Neguei.
Terror:
— Quando eu disse pra ela que você tinha levado um tiro, ela ficou louca, falando que eu tava confundindo, que ela tava falando da Virgínia, da Virgínia dela, que tava pegando alguma puta ou em casa jogando FIFA, e agora ia ligar pra ela.
VOCÊ ESTÁ LENDO
libertina
Teen FictionCorre menor porque no morro do chapadão não tem dó e muito menos perdão Se você roda não abre o bico porque se dedurar vai aparecer morto e mãe vai chora em cima de caixão
