Prólogo

4 0 0
                                        

O berço da criação é onde nascem e se desenvolvem a fase inicial das essências de cada criatura que um dia vagará pelo universo negro e sem fim. É um planeta pequeno, coberto por um adorável gramado de cor alaranjada. Com grandes árvores distantes, de troncos brancos e folhas azuladas que iluminam as noites. As águas cristalinas brincam com as cores do fundo do solo em pequenos lagos ao longo da superfície. Um lugar feito para a vida. Imaginado pelo Pai e sob proteção da Mãe e da Luz, as planícies se perdem no horizonte. Pequenos riachos decoram as áreas de convivência do planeta, sinuosamente dançando em volta das raízes das árvores. O céu é enfeitado pelas luzes constantes dos astros que compõem o pequeno sistema em uma harmoniosa coreografia.

Não há espécies inteligentes do Universo Expandido, apenas essências e seres de Luz. Eles são longos, de corpos transparentes e leves, assexuados e de puro branco. Vivem armados com lanças brancas decoradas em preto e dourado e armaduras cinzas. Usam seus poderes para proteger as essências e são comandados pela Luz a manter a ordem inabalável do Berço.

Longe, se aproximava um navio espacial, em suas cores negras e velas vermelhas estáticas no vácuo. Trazia medo e pânico em seus módulos como um organismo vivo se adaptando. A sombra do navio chegou cobrindo quase todo o solo do lugar. O laranja do gramado se tornou escuro. A luz do sol do sistema foi tapada. Mesmo fora da órbita, era como se conseguissem sentir as vibrações dos motores silenciosos da embarcação na atmosfera.

Os guardiões da Luz já o esperavam, pois era um dia aguardado desde os eventos em Alador. A Luz do Nono Mundo havia avisado da chegada e reforçado a segurança. Pela primeira vez desde a criação, houve pânico em meio à calmaria, e a Luz não estava lá. Se o navio estivesse cheio de soldados dos Escolhidos do Prometido, então os guardiões não teriam a menor chance de defender as essências. Se aproximar do Berço era crime de guerra punível com morte, mas crimes de guerra não era mais algo incomum. Era necessária muita ousadia para desafiar o império, e principalmente, o Pai.

— A ESSÊNCIA! – Gritou o maior dos guardiões, alertando as tropas para a formação. – Protejam-na com as suas vidas, a Luz irá nos servir e os exércitos estarão aqui em breve! – Disse, apreensivo.

Uma horda de guardiões se organizou na frente das essências que ali estavam e se colocaram em guarda. O gigante negro se acomodava fora da órbita do pequeno planeta. A embarcação ficava se reorganizando o tempo todo e corrigindo sua forma. Dela, saíram três naves menores com as cores do navio, e suas velas se balançaram fervorosamente quando se inclinaram para a direção do chão. Como foguetes, desceram perfurando a leve nevoa que pairava no ar, deixaram um rastro de fumaça negra no céu.

O medo começava a afetar os guardiões, ninguém havia chegado, nem o exército da Luz e nem o Capitão prometido. Próximo ao solo, as naves se ajustaram perturbando o balancear da vegetação. Mantinham o mesmo rastro de fumaça preta que cheirava a morte. Voaram em baixa altitude e devagar até os guardiões. Duas delas, nas laterais, elevaram a altura e miraram suas armas nos seres de Luz. Os guardiões permaneceram imóveis, teriam que, pela primeira vez em milhares de ciclos, lutar. Suas lanças começaram a emitir um brilho branco que deixava uma marca no ar. A embarcação central deu a volta e pousou suavemente, abrindo a porta traseira.

— Só manter a calma – ordenou o guardião-mestre. – Não queremos assustar nosso inimigo – tentou encorajar os outros, mas nem ele acreditava nas próprias palavras. – Ele é louco para desafiar o Pai! – Reforçou.

Uma fumaça acinzentada rastejou pelo chão chegando até os pés dos guardiões e cercando-os. Viram um risco vermelho se desenhar na horizontal dentro do escuro interior da nave. O som de passos firmes veio dentre a fumaça e da escuridão do interior se viu a silhueta de Montblanc. Seus pés batiam pesado no chão, em um tilintar metálico. O desenho de uma armadura suntuosa se formou, assim como o rastro vermelho da espada.

Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo FinalHistórias para pegar e não largar. Descubra agora