A Primeira Queda

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O sol do quarto sistema brilhava intensamente, os raios atingiam a Benção Branca e iluminava a área onde as janelas externas permitiam. A pequena tripulação fazia a mesma rotina que há meses vinha fazendo, apenas para manter as atividades básicas.

Saul estava desanimado. Viver sem um propósito o deixou quase vegetativo. Seu navio estava próximo ao porto espacial, mas sempre parecia fantasmagórico. Seus únicos companheiros de bordo eram Vorax e Bartan, mas quase nunca os via. Uma das poucas atividades para fazer era alimentar os tripulantes não oficiais. O Capitão ia em todos os locais e realizava o trabalho que um dia foi feito regularmente por BB21.

As notícias que chegavam só pioravam o aspecto de insegurança fora do navio. A vigorosa Ibdusodem permanecia firme, mas a cada dia que passava, mais conflitos aconteciam. Todos queriam tomar o poder do quarto sistema, e os clones de Montblanc já começavam a ser vistos com mais frequência nas ruas de Inteligus e das outras cidades.

— Tem comida no forno, Bartan. Eu deixei para você, caso viesse para cá atrás disso – disse Vorax, enquanto limpava uma das cozinhas no pátio principal. – Ele ainda não te procurou?

O Piloto se dirigiu aos fornos. Pegou o prato e se sentou na mesa na cozinha mesmo. Bateu o talher, demonstrando o nervosismo.

— Não – disse. – Posso te fazer uma pergunta, Vorax?

— Claro – respondeu. – Mas já sabe que tenho dificuldade com o controle da sinceridade nas respostas, certo?

— Que seja, eu não perguntaria se não procurasse a sinceridade absoluta – rebateu Bartan, antes de tomar um gole de vinho. – Acha que o Capitão está bem mesmo? Ele deveria pelo menos estar curioso.

— Por que a pergunta?

— Nada, é só curiosidade mesmo – respondeu, esquivando-se da especulação direta. – Eu achei que, pelo menos, ele iria me questionar sobre os registros do navio, não que eu os tivesse visto, mas...

— Saul precisa de um tempo para se recuperar de tudo o que aconteceu em Lalúria, e em todo o universo – a voz mecânica de Vorax era firme. – Foi ele quem me pediu para investigar o porquê de você não ter sido morto pelos clones. Acreditamos em você, mas é difícil imaginar que ninguém mais se escondeu ou fugiu. Respondi a sua pergunta?

Bartan sorriu. Então afirmou sem rodeios:

— Não – bebeu mais um gole do vinho. – Por que não vamos para Inteligus ajudar as pessoas? As coisas estão piorando lá embaixo, alguns sistemas já colapsaram, e talvez Ibdusodem seja o próximo.

— Somos apenas três, Bartan – rebateu Vorax. – Cailina sabe o que faz, e não poderíamos ajudar nem se quiséssemos.

Nós somos a Nuvem, Vorax – esbravejou, feroz. – É por isso que estou aqui, só preciso de uma liderança sólida.

— Nosso Capitão vai voltar, só precisa de tempo e paciência.

— Não temos tempo, eu só espero que ele volte antes que algo pior aconteça – Bartan disse antes de sair levando o prato. – Pode deixar que eu mesmo lavo essa louça depois.

Vorax monitorava os passos de tudo e todos no navio através dos drones, mas não interferia. Sempre que possível, ficava na ponte superior procurando qualquer registro sobre o dia da invasão, sem que Saul ou Bartan soubessem. No fundo, queria achar algo que trouxesse o Capitão de volta à realidade, mas não havia nada, nem mesmo sobre BB21.

Um chamado fez com que sua atenção se voltasse para o porto interno do navio. Era uma entregadora trazendo os suprimentos cedidos pela universidade de Ibdusodem, como acontecia toda semana. Dessa vez, no entanto, a entregadora pediu para que alguém a recepcionasse pessoalmente, e que, de preferência, esse alguém fosse Saul Victor.

Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo FinalHistórias para pegar e não largar. Descubra agora