Saul e Vigur se aproveitaram da confusão recém instaurada para sair do palácio de Gleria sem chamar atenção. Não que fosse uma tarefa fácil, mesmo disfarçado, Victor ainda atraía olhares por causa do seu tamanho. Com a movimentação rápida, os capitães logo estavam do lado de fora, que não estava muito diferente. Ambos sabiam que não tentariam rastreá-los naquele dia, talvez naquela semana, e isso garantia o tempo necessário para chegarem ao Pangeia.
Mal saíram das praças reais quando ouviram a multidão gritar o nome de Zancer e festejar a queda de Feivi. Estavam orgulhosos por ter feito parte daquilo, mas não era hora para relaxar. Se esquivaram para um beco isolado, atrás de guardas fáceis do Nicei, e com a oportunidade se formando, atacaram um grupo furtivamente.
— No seu plano, os uniformes serviriam em mim? – Indagou Saul ao ver Vigur trocando de roupas. – Porque acho que não vai dar certo.
— Admito que não pensei sobre isso – respondeu o outro.
— Vamos, vou achar outra alternativa – rebateu Victor. Viu um sacerdote do Prometido com um traje largo na multidão. – É comum ter seguidores de Montblanc nos navios? – Perguntou.
— O Nicei é quase uma nação como outra qualquer – respondeu o capitão Vigur, indo verificar o que Saul havia visto. – Boa ideia.
Vigur, devidamente vestido com o uniforme do soldado, usou do seu disfarce para atrair o sacerdote. A emboscada rendeu à Saul a túnica cinza dos Escolhidos, ainda que bem justa, mas com capuz grande.
— Vamos procurar a guarnição do Nicei – disse Saul, voltando à multidão com rapidez. – Tem alguma noção de onde começar?
— Com certeza estão aqui por causa das revoltas, vão prender os manifestantes mais audaciosos. Já vi isso antes – Vigur comentou com toda a sabedoria que tinha. – Devem estar em um prédio grande e com porto aéreo para as naves, vai ter uma baita fila na entrada.
Victor, com seu tamanho avantajado, enxergou um edifício que se encaixava na descrição do outro lado da praça. Seguiram juntos, mas a falta de atenção os levou à caminhos diferentes. Saul se viu sozinho na entrada, com dificuldade para encontrar seu amigo. Um guarda, ao notar que o suposto sacerdote estava perdido, se aproximou, afastando os mais acalorados na militância. Em reverência, perguntou:
— Precisa de ajuda, sacerdote?
O Capitão travou, não sabia o que responder. Pensou em alguma senha que lhe haviam falado, mas o que saiu de sua boca foi um ruído confuso que não dizia nada.
— Pelo Prometido, sacerdote! – Exclamou Vigur, saindo de um grupo de pessoas. – Achei que não iria te encontrar mais – se virou para o soldado e se pôs em reverência. – Todos saúdam o Prometido.
O homem respondeu o cumprimento, mas o observou cismado.
— Eu não te conheço de algum lugar? – Questionou.
— Talvez, mas acho difícil – respondeu rápido, para não ser pego na mentira. – Eu sou novo no serviço, e me perdi da minha tropa. Por um acaso não sabe onde estão os guardas do distrito Prisional, sabe?
— Estão em Gragúrio, Shuran não quis causar mais pânico com a aproximação do navio em Satsu Man – respondeu o guarda. – Apenas os soldados do Tigre Tamburiano podem fazer o deslocamento de detentos.
— O Tigre? – Disse Vigur, com um pesar sentimental. – É claro que sim – completou. – Viemos em uma missão atrás de suprimentos dos mais difíceis de encontrar – indicou as bolsas. – E precisamos voltar.
— Hum – expressou o guarda, ainda desconfiado. – Bom, estamos embarcando uma carga, podem pegar uma carona.
— Ótimo! – Disse Saul, saindo da situação. – Pelo... Prometido.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo Final
Science FictionAs drásticas consequências recaíram sobre os mundos desfazendo toda a ordem vigente estabelecida. Os temidos tempos sombrios haviam chegado e ninguém estava, de fato, preparado para eles. As guerras por poder deram lugar à uma jornada de autodescobr...
