Dois dias haviam passado quando os capitães e Patritch tiveram notícias do mundo externo. A mansão de Jus Raor havia sido atacada no dia em que saíram de Balicso, e a Doutora estava desaparecida desde então. Tanto para Saul, quanto para Vigur, era claro para onde ela havia sido levada, e por quem. A população estava furiosa com as forças da aliança, e alguns tumultos tomavam as grandes cidades.
— Não consigo entender como as pessoas são capazes de ficar do lado dos aliados de Montblanc – protestou Victor. – Eu concordo que as forças Aliadas fizeram muita coisa errada, mas...
— Não tem "mas", capitão Saul – rebateu Patritch, colocando um prato sobre a mesa. – Venham se alimentar. Temos que ir embora ainda hoje ou ficaremos presos aqui – serviu os copos com chá. – Montblanc e seus cavaleiros, para muitos, são heróis. Temos que entender o contexto em que estamos vivendo, a vida melhorou muito em alguns sistemas.
— Realmente, Saul – disse Vigur. – Me dói admitir isso, mas uma parte desses benefícios veio do próprio Montblanc. Ele não desamparou o povo quando eles precisaram, e isso aconteceu várias vezes.
Saul, carrancudo, mordeu um bolinho e bebericou o chá.
— Está errado, o que ele fez foi muito errado – insistiu.
— Para nós, com certeza, vivemos isso na pele – admitiu Patritch.
— Mas muitas das pessoas nasceram tendo Montblanc como seu salvador paladino – completou Vigur. – Não podemos condená-las por escolherem o lado que as ajudou, mesmo que seja o lado errado.
— Durante o auge das guerras corporativas, clones e Escolhidos abriram os templos para as pessoas – o general lembrou. – Depois veio a pandemia do Ramo Vermelho, e mesmo os clones sofrendo muito mais com a contaminação, ele ainda lutava pelos outros. Eu não ouso imaginar os motivos, mas muitos povos só sobreviveram à crise graças a ele.
Saul abocanhou o último pedaço do bolinho e virou o chá.
— Já chega – bateu o copo na mesa. – De que lado estão?! – Saiu.
A porta da sala no alto do Hangar foi batida com força.
— Eu falo com ele – disse Vigur. – Enquanto isso, poderia falar com o Aríl? Peça para que se prepare, para partirmos.
Patritch saiu, levando alguns bolinhos no bolso do traje. Vigur fez questão de terminar sua refeição antes de ir atrás de Saul. Não era difícil imaginar onde ele estaria, ainda mais sem a prótese.
Estavam na sala mais alta do complexo norte do aeroporto velho e só havia um lugar para se pensar ali, o mirante superior. Vigur viu seu amigo encostado em uma coluna de sustentação com o olhar perdido.
— Eu nunca me considerei um grande herói, mas hoje me senti o verdadeiro vilão do Universo Expandido – confessou Saul, triste.
— Todos estamos na penumbra entre a luz e a escuridão, não há bem e mal, e você sabe muito bem disso – rebateu Vigur. – Há dias que estou para te perguntar, não tive coragem ainda, o que sentiu quando viu Montblanc de novo depois de tanto tempo?
Os olhos do Capitão tremeram.
— Medo, raiva, frustração – disse, pausadamente. – Quando ele me olhou nos olhos, não pude suprimir o arrependimento que senti por não o ter matado, quando tive chance. Não estaríamos vivendo tudo isso se eu não tivesse sido um covarde fraco e...
— Não adianta ficar remoendo pedaços do passado – Vigur disse.
— Vocês disseram que os clones sofreram muito com a pandemia do Ramo Vermelho, por quê? – Indagou Saul.
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Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo Final
Science FictionAs drásticas consequências recaíram sobre os mundos desfazendo toda a ordem vigente estabelecida. Os temidos tempos sombrios haviam chegado e ninguém estava, de fato, preparado para eles. As guerras por poder deram lugar à uma jornada de autodescobr...
