Havia uma aura de derrota no oitavo sistema, não era pior do que a queda de Alador, ciclos antes, mas era tão dolorosa quanto. E os que sobreviveram, tiveram a árdua tarefa de conviver com o fato de que os tempos eram outros. A desolação se estendia para os planetas da mesma forma drástica em que ela se estabeleceu.
Fargopoletânea era uma cidade rica, que havia se desenvolvido do que restou de Alador e se estabeleceu com a capital honorária. Há dias que Saul estava na antiga sede do governo, e passava suas manhãs com os olhos na cidade. Sua arquitetura futurista impressionava, exibia várias pirâmides de pedras brancas e enormes edifícios finos. Os distritos eram bem divididos e traziam um ar de sofisticação, mas estava abalado pelos últimos acontecimentos. De longe, se ouvia os conflitos entre as forças Aliadas e os defensores de Montblanc. A maioria deles era do exército aladoriano que se uniram aos outros grupos contrários à Saul.
A sala principal da pirâmide central estava cheia de pessoas e suas questões envolvendo o sistema. Vigur tentava sanar os danos, mas a cada nova solicitação, um novo problema surgia. Um noticiário transmitia os acontecimentos dos mundos, ninguém estava prestando atenção nele até que a voz de Montblanc surgir.
Este é um comunicado oficial do Prometido. Em decorrência dos conflitos atuais e suas consequências em nossas vidas, eu anuncio que estou retirando os templos do Prometido dos grandes centros. Todos que estavam na sala passaram a prestar atenção, exceto Saul. Ninguém ficará desamparado por causa disso, as fortalezas dos clones receberão todos os sacerdotes e fiéis. Lhes daremos segurança e um refúgio para que, no final dessa jornada, todos voltemos ao normal. Quanto aos edifícios que ficarão onde estão, eles poderão ser retomados pelos fiéis à Luz.
— Ele vai nos pintar como vilões de novo – reclamou uma oficial que assistia o anúncio na sala. – Não podemos deixar isso acontecer!
Os presentes olharam para Saul, esperando uma resposta, mas não foi dito nada a respeito. Ele apenas sinalizou que ouviu e se voltou aos horizontes de Fargopoletânea.
Novamente peço que não resistam, não há porque lutar, já basta as mortes pelas quais choramos. Aos soldados que ainda lutam por seus sistemas eu digo para desistirem e se entregaram. Deixem que tomem as cidades e que reconstruam suas bases, rezaremos para que tudo volte a ser como antes para nós. Aos sacerdotes que estão em missão, eu peço que tragam seus apadrinhados às fortalezas. Eu farei a escolta de vocês, se assim for necessário. Montblanc parecia sério. Repliquem ao máximo essa mensagem para que chegue a todos. Não estamos sozinhos.
— Como isso é possível?! – Protestou a mesma oficial. – Será que as pessoas não veem a verdade em tudo isso?
— Elas veem – Saul respondeu. – E nós também. Já olhou para a cidade hoje? Tudo o que vejo são colunas de fumaça preta com gritaria e desespero por todos os lados. Incontáveis exércitos lutando uns contra os outros sem a menor noção do porquê fazem isso – sugeriu com o olhar as ruas no entorno do edifício. – Pessoas gritando para serem ouvidas e nós as ignoramos porque achamos que nossa missão é mais importante.
— Não foi isso que eu quis dizer – a mulher se desculpou.
— Eu sei que não, mas essa é a verdade para eles – rebateu Saul.
Vigur se colocou à frente. Disse:
— Talvez devêssemos continuar essa conversa depois – foi até a porta e a abriu. – Tem sido dias horríveis para todos nós.
As pessoas começaram a sair em silêncio, ignorando o discurso de Montblanc no noticiário. Alguns se despediam dos capitães, mas outros apenas viravam as costas e saiam.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo Final
FantascienzaAs drásticas consequências recaíram sobre os mundos desfazendo toda a ordem vigente estabelecida. Os temidos tempos sombrios haviam chegado e ninguém estava, de fato, preparado para eles. As guerras por poder deram lugar à uma jornada de autodescobr...
