Inteligus estava entregue ao caos, suas ruas de tons frios agora viviam tempos de trevas, medo e paz violenta. Em todos os lugares havia postos de soldados dos Escolhidos, e clones de Montblanc não mais se importavam de serem vistos. Ninguém lutava, falava ou se importava mais com nada. Uma ordem aparentemente segura havia se instalado em Ibdusodem e ela parecia manter o cotidiano pacífico da opressão.
A cidade de Magnes, no extremo oeste de Ibdusodem, estava mais agitada com a visita do governador do sistema, mas ninguém sabia, de fato, o motivo. O visitante também havia trazido consigo o medo de que aquele fosse o fim da paz na ilha. Um hotel inteiro, fora da cidade e ao norte dos portões, foi usado para abrigar toda a caravana.
— Senhor governador Rancel? – Perguntou uma mulher ao bater na porta do quarto. – Posso entrar? Seus soldados disseram... – A porta se abriu como que por conta própria.
Rancel estava sentado à uma pequena mesa no canto do aposento e de frente para uma janela, assistia ao entardecer.
— Entre, pode falar, não se preocupe – disse, sem se virar.
A mulher caminhou para dentro do quarto, o Governador estava com roupas leves e a parte de cima aberta. Quando a funcionária viu o lado direito de seu rosto e corpo, se espantou, soltando um grunhido.
— Me perdoe, senhor – se pôs reverência. – Por favor, não me castigue pela insolência, eu não fiz por mal.
— Se levante – revirou os olhos, ajustou seus trajes para tentar esconder as marcas deixadas pelo Livro. – Só diga o que tem a dizer.
A funcionária se posicionou, limpou os joelhos, e tentou:
— A... a sua... o seu convidado já chegou, posso pedir para que venha até aqui?
— Sim, claro – respondeu Rancel, dispensando a mulher.
Foi possível ouvir os passos acelerados da funcionária e uma clara respiração aliviada ao sair do quarto. Naquele momento, Rancel soube que ainda não estava preparado para ser uma imagem pública.
Alguns minutos depois, uma criatura entrou no quarto sem nem ao menos se pronunciar. Era claramente um Arcânuna, porém, com aspecto canídeo selvagem, tinha um porte forte, mas não era grande.
— Governador – disse ela.
— Montblanc pediu para que eu enviasse você à Dascart em sigilo absoluto e isso por si só já é uma tarefa difícil. Eu vou cumprir a ordem dele com maestria – a voz de Rancel soava preocupação. – A ideia desse espetáculo foi dele, então eu imagino que ele pretende subverter o quinto sistema assim como fez com os outros. Certo?
— Eu tenho as minhas ordens, e até onde sei elas não envolvem Ibdusodem ou a universidade – respondeu a criatura.
Rancel se levantou, dessa vez não se importou em ser visto.
— Dascart pertence ao governo ibdusodeno – rebateu. – Seja qual foi a sua ordem, ela deve estar de acordo com...
— Com nada! – Interrompeu Montblanc, entrando no quarto com calma em cada passo. – As ordens de Dax pertencem à Dax. Já passou da hora de Dascart se desenvolver pelo próprio destino.
— Montblanc, por acaso, imaginou o caos que... – tentou Rancel com o mesmo tom, mas foi interrompido com apenas um olhar.
— Não tenho que imaginar nada, não há nada para ser imaginado sobre a independência de um sistema – rebateu o clone. – Não me julgue como irresponsável, sei o que estou fazendo. Por um acaso, está dando ouvidos aos professores da universidade?
— Eu os questionei sobre o projeto de reconstrução quando me pediu o acesso ao portal – respondeu Rancel. – Por segurança.
— E o que eles disseram? – Indagou Montblanc.
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Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo Final
Science FictionAs drásticas consequências recaíram sobre os mundos desfazendo toda a ordem vigente estabelecida. Os temidos tempos sombrios haviam chegado e ninguém estava, de fato, preparado para eles. As guerras por poder deram lugar à uma jornada de autodescobr...
