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O Jogo das Sombras

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A lua de Montblanc nunca havia estado tão tétrica, com as árvores secas pelos vales e o frio sinistro tomando conta das montanhas e dos belos rios. O soturno céu da noite, mesmo bem iluminado e vívido com suas estrelas, parecia sentir o peso mórbido que acobertava os antigos campos floridos. Muitos Escolhidos passaram a ter a lua como um verdadeiro lar, o que dava mais vida para o lugar, mas até mesmo os mais esperançosos sentiam o temor. Os animais nativos já não eram mais vistos entre os clones, e os domesticados não se comportavam tão bem.

Alguns espaços afastados foram selecionados para a construção de crematórios para os corpos dos clones mortos. Montblanc não mantinha mais as alas hospitalares do laboratório para clones infectados, o estado crítico era a condenação de mais um corpo. A produção havia aumentado significativamente para balancear a mortalidade, mas não era suficiente para manter os números. Era possível ver ao longe as colunas de fumaça dos mortos e rejeitados pela produção acelerada.

— O que faz sozinho aqui embaixo? – Indagou um clone a Cipher enquanto este andava pela abandonada cidade de Montblanc.

— Apenas passando o tempo – respondeu Cipher, com a rapidez de alguém que havia se assustado há pouco. – Tem sido tedioso assistir a tudo o que está acontecendo fora da ação. Creio que eu seja o pior dos seus cavaleiros, não? – Brincou, mas não obteve reação do clone.

— O que menos me deu trabalho, com certeza – respondeu antes de tossir uma pelota de sangue branco coagulado. – Acho que mais um de mim morrerá em breve – esfregou o sangue no solo arenoso.

Cipher consentiu, triste. Disse:

— Achei que os Escolhidos morariam aqui quando você permitiu que ficassem no laboratório – olhou para o templo. – Era o que precisava para um bom desenvolvimento de uma nova sociedade.

— A cidade dá acesso aos laboratórios, e eles não podem entrar nesses lugares – o clone respondeu. – Eu criei essa cidade para estudar a execução dos meus antigos planos, mas essa ideia já não existe mais.

— Depois do ataque à Espada da Comunicação?

Principalmente depois daquilo – Montblanc respondeu. – Eu e os sacerdotes achamos que Saul chegará aqui logo, quero te mostrar uma coisa antes disso. Venha comigo – seguiu para as escadarias.

Cipherion, normalmente, teria dificuldade em seguir o ritmo dos clones em seu caminhar, mas dessa vez era fácil. Havia uma parada para respirar fundo a cada cinco passos. O que antes era uma movimentação sem descanso, agora era calmo e vazio, mesmo na fábrica.

Chegaram ao átrio de entrada do laboratório principal, o clone viu seu corpo original no tubo de preservação, a tristeza era evidente.

— Está tudo bem, Montblanc? – Indagou Cipher.

— Eu estou decepcionado – ele respondeu. – Estou começando a acreditar que, se Saul chegar com tudo o que promete, não vou conseguir proteger os fiéis. Eu rastreei a infecção, ela vem do corpo original e está moldando meu DNA na clonagem. Não está afetando o hospedeiro e não é transmissível, nem mesmo para outro Supremo. Tudo o que eu queria é saber como fizeram isso. Nem os melhores engenheiros genéticos que há na corporação Bandonoíta conseguiram uma resposta. Eles disseram que o vírus parece natural, o que não faz nenhum sentido biológico. Sei que o patógeno é artificial, só não sei como fizeram isso – começou a tossir de forma descontrolada. – Já venho.

O clone saiu cambaleando, e deixando mais sangue coagulado no chão em que passava. Mal chegou à porta de saída, caiu e se arrastou até um sofá próximo, mas estava se sufocando com o próprio refluxo. O ar lhe faltava e seus olhos ficaram vermelhos, até que morreu. Cipher olhou para o outro lado, se agonizando com os sons que ouvia.

Sete Vidas em Nove Mundos - O Segundo FinalHistórias para pegar e não largar. Descubra agora