Pacto

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O quarto estava mergulhado na penumbra quando Désirée fechou a porta atrás de si.
Ela se encostou à madeira fria por um momento, os olhos fechados, tentando controlar a respiração que vinha aos solavancos.

Não choraria.
Não mais.
Havia prometido isso a si mesma tantas vezes que agora o simples ato de conter as lágrimas era quase automático.

Avançou até a cama, os dedos apertando a saia com força, como se pudesse assim esmagar a dor que brotava do peito em ondas silenciosas.
Sentou-se devagar, com a elegância que lhe era natural, embora tudo dentro dela estivesse despedaçado.

Era irracional.
Ele nunca lhe prometera nada.
Joshua sempre fora claro, ainda que raramente em palavras: ela era sua esposa apenas no papel, e, às vezes, em sua cama.
Nada além disso.
Nada além de... conveniência.

Então por que doía tanto?
Por que uma simples frase dita com desdém feria mais do que açoite?

Désirée fechou os punhos sobre o colo, a pele sob as unhas ameaçando romper.
Ela queria Joshua para si.
Queria sua atenção, seu desejo... seu carinho, se é que ele seria capaz disso.
Mas sabia que carregava culpas que o afastariam se algum dia viessem à tona.
Sabia que, mesmo sem seus erros, talvez nunca fosse suficiente para ele.

E ainda assim, seu coração teimava em desejá-lo.
Teimava em ansiar por um sentimento que ela própria não ousava nomear.

Amor.

A palavra pairou na mente como uma sombra proibida, e Désirée a afastou com brutalidade.
Não, não amor.
Desejo. Carinho. Afeto.
Qualquer coisa que fosse possível, que fosse suportável.
Amor era um luxo para quem não carregava segredos tão pesados que podiam esmagar duas almas de uma só vez.

Ela deixou o corpo cair sobre os lençóis, virando-se de lado, abraçando o travesseiro como se fosse uma âncora em meio à tempestade.
Fechou os olhos, o peito apertado em um nó que nem mesmo o tempo parecia capaz de desfazer.

Não o culpava.
Não ousaria.
Mas, em silêncio, desejava — com uma força que beirava o desespero — que, um dia, Joshua a olhasse e enxergasse nela mais do que um dever.
Que a desejasse como ela o desejava.
Que sentisse falta dela.
Que precisasse dela.

A esperança, frágil e insana, enraizava-se em seu peito mesmo contra sua vontade.
E era isso que a feria mais profundamente: saber que, apesar de tudo, ainda esperava por ele.

Deitada na cama, com o coração latejando em feridas invisíveis, Désirée deixou escapar um suspiro quebrado.
O travesseiro abafou o som, mas não a dor.
E talvez fosse melhor assim.

Com os olhos fixos na escuridão, ela fez um voto silencioso.
Um pacto consigo mesma.

Nunca mais o procuraria.
Nunca mais se estenderia em direção a ele como uma tola mendigando migalhas de afeição.

Se Joshua a queria apenas como um nome em seus documentos, como um corpo em sua cama quando a solidão lhe pesasse nos ombros — então que fosse.
Mas que soubesse: ela não seria uma cortesã a seu dispor, alguém que ele chamasse e descartasse conforme a conveniência ou o capricho de suas vontades.

Désirée apertou ainda mais o travesseiro contra o peito, como se pudesse costurar o que sobrava de sua dignidade nele.
Respeitaria seus limites.
Respeitaria o espaço que ele exigia, mesmo que cada passo para trás lhe rasgasse a alma.

Cada vez que ele a afastasse, ela obedeceria.
Sem lágrimas, sem súplicas.

Mas não se entregaria à humilhação.
Não venderia seu coração por momentos breves de prazer.

Se ele não a queria por inteiro — alma, corpo, sonhos e feridas — então ela não daria a ele fragmentos de si mesma como se fossem mercadorias baratas.

Aos poucos, as lágrimas que ela tanto lutara para conter começaram a escapar, deslizando silenciosas pelas têmporas.
Ela deixou que caíssem.
Apenas desta vez.

Porque, ao amanhecer, jurava a si mesma que seria forte.
Que seria fria, se necessário.
Que carregaria no peito a dor muda dos que amam em silêncio... e sobrevivem.

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