Adeus

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Joshua acordou com a cabeça latejando, apoiado nos cotovelos sobre a escrivaninha do escritório. A luz fraca da lua filtrava-se pelas cortinas pesadas, e ele sentiu o gosto amargo do whisky seco na boca. O cheiro de papel velho, da cera da lareira e da madeira da escrivaninha se misturava à sensação de confusão que percorria seu corpo. Ele se espreguiçou, mas cada movimento parecia arrastar a dor da descoberta para cada músculo. A memória das cartas, das palavras que tinha lido, latejava como uma ferida aberta, e um frio profundo percorreu sua espinha.

Ele se levantou cambaleante, os passos pesados ecoando pelo chão de madeira. Cada movimento era um esforço, mas havia uma necessidade urgente em seu peito, uma urgência que o fazia ignorar a dor da embriaguez e do arrependimento: precisava vê-la, precisava ouvir da própria boca de Desirée a verdade que ele já sabia.

O escritório estava silencioso, exceto pelo crepitar da lareira. Joshua olhou para a pilha de cartas que ainda repousava em um canto. Por um instante, sequer pensou ao queimá-las ali mesmo, em apagar cada palavra, cada confissão. Ele as pegou uma a uma e as lançou para o fogo, vendo o papel se curvar e se transformar em cinzas. Cada estalo da chama parecia ressoar com a raiva que crescia dentro dele.

Finalmente, cambaleando, Joshua dirigiu-se ao quarto de Desirée. O silêncio da casa, antes acolhedor, parecia agora o prenúncio de uma tempestade. Ele a encontrou de costas, se arrumando para o jantar, alheia ao turbilhão que se aproximava. Ao vê-lo, o sorriso dela desapareceu, substituído por um misto de medo e surpresa.

—Joshua… — começou Desirée, a voz trêmula — O que aconteceu? Por que você bebeu tanto?

—Silêncio. — Ele avançou, abrupto, como um predador, segurando-a pelos braços com força e tentando prendê-la com fúria. — Por que não me disse a verdade? — sua voz era rouca, misturando raiva e dor, cada palavra arrastada pelo álcool que ainda pulsava em suas veias.

Desirée recuou, o coração disparado, sentindo a diferença entre o Joshua que conheceu e aquele homem que a encarava com olhos gelados, famintos de respostas e vingança.

—Joshua, pare! — disse, afastando-o, tentando manter alguma distância entre eles. — Eu… eu não entendo…— Disse torcendo para não ser o que era pensava.

—Não entende? — ele riu, mas o som era cruel, cortante — Você pode parar de fingir pureza, Desirée. Que tal entregar-se a mim como a mulher vadia que você é…? ou, se tiver nojo de mim, eu posso pagar, posso dar o dinheiro que você tanto quis.

O choque a atravessou como um golpe. Ela ergueu a mão e bateu forte em seu rosto, tentando quebrar o ímpeto brutal que o álcool e a raiva lhe conferiam.

—Seu… seu desgraçado! — conseguiu dizer, respirando com dificuldade. — Por mais íntimos que sejamos, você ainda me deve respeito.

—Ah, é? — ele a encarou, olhos faiscando, enquanto acariciava o rosto marcado pelo tapa da esposa. — Então você quer ser respeitada, como uma dama de um homem só? Por isso não foi minha desde a minha volta?

Desirée quase não conseguia respirar, e sabia que não era o corselete apertado, eram as palavras dele lhe tirando ar.

— O seu amante… o pai das crianças… não permite que você se entregue ao próprio marido?

Desirée engoliu em seco. O terror se espalhou pelo corpo. O que ele sabia? O que ele imaginava? O simples olhar dele, antes quente, agora era pura pedra de gelo.

—Joshua… — tentou começar, mas sua voz se perdeu em um soluço contido.

—Não precisa mentir mais para mim! — ele continuou, quase gritando — Já sei que esses bastardos são filhos do seu caso com algum homem! — Ele recuou um passo, respirando fundo, as mãos tremendo, a raiva consumindo cada centímetro de sua razão. — Talvez tenha sido bem paga… mais do que meu próprio pai pagou para se deitar comigo, ou talvez por não conseguir engravidar na nossa noite de núpcias tenha tentado um novo caminho, menos digno.

Desirée sentiu o mundo desmoronar. Cada palavra dele era um punhal. Ela começou a chorar, soluçando, sentindo a mão de Joshua tremer sobre ela.

—Joshua, não… não é o que você está pensando… — disse, a voz falhando, sabendo que a verdade não podia sair de sua boca. Nem agora. Nem jamais.

—Você é o pior tipo de mulher que existe! — ele gritou, a raiva o dominando completamente — Como pôde fazer isso comigo? Como pôde mentir para mim, para as crianças… para todos, desde o nascimento delas?

—Joshua… — ela sussurrou, tentando manter a calma — Não é… não é o que você está pensando… Eu juro que...

Ele a olhou, olhos duros como aço, e algo nele se quebrou.

—Não quero mais ver você. Nem Michael. Nunca mais. — Cada palavra era um golpe, frio e implacável. — Mas as crianças… elas podem ficar. — Ele respirou fundo, a fúria fervendo — Eu não vou tirá-las de você, porque eu não sou o pai, mas se eu pudesse eu livraria elas ter terem uma mãe tão suja quanto você.

Desirée sentiu o coração apertar, o medo misturado à dor do amor perdido.

—Joshua… por favor… — implorou, sentindo o desespero engolir cada pedaço de si — Não conte para ninguém, nem para Liz, nem para Sophie… Elas acreditam na mentira…

—Jamais contarei para alguém, as crianças não merecem essa dor de ver a vida ser destruída, de passarem de herdeiros do duque para bastardos de uma qualquer. — Ele respirou fundo, os ombros tensionados, a raiva ainda queimando — Mas você sairá. E rápido. Antes que eu perca o controle de verdade.

— Antes me prometa que não fará mal a eles. — Ela sabia que no momento em que saísse dali estaria deixando seu coração para sempre, mas havia se preocupar com a sua família. — Não fará mal aos meus filhos, nem a minha irmã, nem a Sophie. Deixe que elas cuidem das crianças, elas são tão vítimas quanto você.

— Michael e meu pai foram os únicos a saber dessa sua farsa? — Joshua perguntou. — E não minta pra mim.

— Sim.

— Então elas ficam e em segurança... Mas vocês dois, escórias, eu quero longe da minha vista, ainda hoje.

Ela se encolheu, as lágrimas escorrendo silenciosas, enquanto ele se afastava, cada passo seu ecoando como sentença final. O homem que ela começou a amar, que se tornou o centro de seu mundo, agora a declarava como alguém que deveria desaparecer, e Michael junto com ela.

— Há a propriedade perto nas terras do seu pai. Volte para lá. De onde nunca devia ter saído. — Ele disse com frieza. — Precisamos manter as aparências, então ainda é a duquesa, ao chegar lá, coloque quantos homens quiser na sua cama, mas tenha postura fora dela.

E aquelas palavras, mostraram o tipo de pessoa Joshua agora achava que ela era.

Desirée permaneceu ali, no frio do quarto, ouvindo o som da porta se fechar com um estrondo, sentindo a solidão esmagadora e a certeza de que tinha perdido Joshua para sempre. E, mesmo com todo o medo e desespero, a prioridade ainda eram as crianças. A segurança delas, mesmo que custasse o homem que amava, seria sua responsabilidade.

O silêncio se espalhou pelo quarto. Ela se sentou na beira da cama, abraçando-se, tremendo, enquanto a noite avançava lá fora e o vento frio sussurrava pelas janelas. Cada lembrança de Joshua, cada toque e cada olhar perdido, parecia agora uma ferida aberta que não pararia de sangrar.

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