Ponto

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Os dias tinham sido insuportáveis para Joshua desde a última vez em que tentara se desculpar com Désirée. Desde aquele momento malfadado, parecia que o duque voltara a carregar o peso do mundo sobre os ombros.
Ele preenchia suas horas em meio ao trabalho árduo — nos estábulos, entre papéis esquecidos em sua mesa, ou brincando com seus filhos, sempre que eles não estavam sob a companhia de Michael. E, sendo honesto consigo mesmo, Joshua começava a compreender o carinho que todos dedicavam ao jovem homem: cortês, prestativo e atento, Michael era uma presença gentil, como se, mesmo sem as lembranças, sua essência verdadeira insistisse em vir à tona.

Naquela tarde, Joshua observava os cavalos sendo conduzidos para o banho de sol. A luz suave acariciava o dorso dos animais, arrancando deles suspiros satisfeitos. Foi então que notou a aproximação de uma figura familiar.

— Mesmo sem minhas memórias, sinto um apreço imenso por esses animais — comentou Michael, em um tom de camaradagem tranquila, como se fossem velhos amigos.

— São criaturas dóceis. Difícil não se encantar por elas — respondeu Joshua, sem desviar o olhar dos cavalos.

Michael sorriu, um sorriso fácil e genuíno.

— Acredito que esteja certo.

Joshua arriscou um meio sorriso também.

— Pelo que pude notar, você também parece ter passado esse apreço para todos no ducado.

A afirmação arrancou uma gargalhada sincera de Michael, que inclinou a cabeça para trás em uma risada despretensiosa.

— Experimente dizer não a todas aquelas mulheres — brincou, com os olhos cintilando — e ao projeto de duquesa que corre pelos corredores.

Joshua ergueu uma sobrancelha, divertido, mas sabia que não teria coragem de recusar-lhes nada, a menos que fosse forçado.

— Liz foi a mais insistente — prosseguiu Michael —, e até consegui dizer não a ela quando me pediu que a ensinasse a montar. — Seus olhos se estreitaram com humor. — Mas Day e Sophie começaram a me pedir o mesmo... e, bem, não pude ser tão firme com elas.

Joshua soltou uma risada seca.

— Imagino que você não estaria com todos os seus membros intactos se tivesse negado por mais tempo.

— Com certeza não — respondeu Michael entre risos.

Mas, ao terminar a frase, o jovem arregalou os olhos, como se algo repentinamente o atravessasse. Seu rosto iluminou-se, e ele levou a mão à cabeça.

— Eu me lembrei — murmurou, e um sorriso de genuína surpresa se abriu em seu rosto.

Joshua franziu as sobrancelhas, confuso.

— Eu lembrei um pouco mais — explicou Michael, a voz embargada de emoção.

Apesar da pena que sentia pelo pobre homem, Joshua reconheceu que qualquer fagulha de memória recuperada era motivo de celebração.

— Fico feliz que esteja conseguindo recordar — disse, com um aceno leve.

Michael continuava sorrindo, quase incapaz de conter a alegria.

— Parece que conversar sobre determinados assuntos faz as lembranças emergirem...

— Faz sentido — assentiu Joshua, pensativo.

Michael deu alguns passos, pronto para se afastar, mas então voltou-se, o olhar mais sério.

— Désirée foi capaz de me fazer ensinar a ela, duas damas e duas crianças que mal tinham saído do berço a montar cavalos — disse com um sorriso nostálgico. — E ela fez isso sorrindo... alegre. — Sua voz então baixou para um tom quase conspiratório. — Não queremos descobrir do que ela é capaz quando está furiosa.

Joshua ficou em silêncio por um instante, absorvendo aquelas palavras como se fossem um golpe invisível, mas logo recompôs a expressão.

— Não pretendo deixá-la com raiva — afirmou, num tom mais firme do que sentia.

Michael, porém, arqueou uma sobrancelha e, com a franqueza típica de quem ainda não perdera a inocência da memória, retrucou:

— Mas ela está furiosa. — Sorriu de lado, quase divertido. — Estou de volta há menos tempo que você, mas... convenhamos, sabemos o suficiente sobre as mulheres para entender que elas não esperam perfeição. Só querem que sejamos perfeitamente submissos à sua vontade.

Joshua soltou um suspiro resignado. Não havia como contestar aquilo.

Inferno.

Mais um ponto para Michael.

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