Noite infinita

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O som das rodas da carruagem ainda ecoava em sua cabeça, mesmo depois que o silêncio voltou a reinar no seu quarto. Joshua estava parado diante da janela, os olhos fixos na escuridão lá fora. A chuva havia cessado, mas o chão ainda brilhava sob a lua — e tudo parecia tão morto quanto ele se sentia por dentro.

Na lareira, as brasas começavam a se apagar. Um restolho de papel queimado ainda emanava fumaça, o cheiro agridoce de madeira misturado ao álcool que impregnava suas roupas.

Joshua passou a mão pelo rosto, os dedos pressionando as têmporas latejantes. A ressaca não era apenas do whisky — era da própria vida. Do amor. Da mentira.

—Você foi embora, então... — murmurou, como se ela ainda estivesse ali para ouvir. —Finalmente conseguiu.

A voz dele ecoou pela quarto vazio, e o som de sua própria voz o feriu.

Deu alguns passos até a cama, cambaleando levemente. Os lençóis estavam espalhados, as garrafas abertas, uma taça virada de lado com o whisky escorrendo pelo tampo. Tudo parecia tão desordenado quanto o que havia dentro dele.

Sentou-se em uma cadeira e, por um instante, apoiou o rosto nas mãos. Tentou respirar, mas o ar vinha pesado, preso.

Desirée.

O nome ainda o dilacerava.

Como ela pôde?

Como alguém tão gentil, tão doce, tão… pura, pôde esconder uma podridão tão grande?

Ele apertou os punhos, o olhar ardendo.

—Mentiu pra mim. — sussurrou. —Para os filhos. Pro mundo.

Levantou-se de súbito, chutando a cadeira para longe. O som de madeira contra o chão ecoou pelas paredes.

—E eu, idiota, acreditei! — gritou. —Acreditei em cada toque, em cada maldito sorriso!

Caminhou até o espelho que havia na parede e se encarou. O reflexo mostrava um homem destruído. O olhar embaçado, a barba por fazer, a camisa amassada. Um estranho.

—O que foi que ela fez comigo… — murmurou, a voz rouca. —Tirou tudo. Até o que eu era.

Passou as mãos pelos cabelos, os pensamentos girando.

As crianças.

Ivy e Alec.

O peito se apertou com força.
Não eram dele.
Mas ele os amava. Deus, como os amava.

E o pior era isso — amava algo que nunca fora seu. Um amor plantado sobre o engano.

—Por que você não me contou? — sussurrou. —Por que não confiou em mim?

As lágrimas vieram antes que ele pudesse contê-las. Escorreram quentes, misturando-se ao gosto amargo do álcool e da perda.

—Eu teria perdoado você. — disse, num sussurro quase inaudível. —Se tivesse dito a verdade, se tivesse passado a ser só minha… eu teria perdoado.

Mas ela não dissera.
E agora era tarde demais.

Joshua recuou, sentando-se no sofá. Ficou ali por longos minutos, o olhar vazio, até que a madrugada começou a clarear pela janela. O céu azulava devagar, e o canto de um pássaro solitário rompeu o silêncio da casa.

O duque sentiu um peso ainda maior — a ausência dela tornava tudo mais frio, mais real.

Ele se levantou, cambaleante, e foi até o quarto de Alec e Ivy. Abriu a porta devagar. As crianças ainda dormiam. Um dormia abraçado ao outro, os rostinhos serenos, alheios ao caos que destruía o mundo dos adultos.

Joshua ficou ali parado, observando-os.
A garganta se apertou.

—Não é culpa de vocês… — murmurou. —Nunca será.

Abaixou-se e ajeitou o cobertor sobre eles. Tocou de leve o cabelo de Ivy, e sentiu o nó na garganta quase sufocá-lo.

—Eu juro que vou cuidar de vocês. — prometeu, com voz trêmula. —Mesmo que ela tenha me destruído, vocês não vão pagar por isso.

Ficou ali mais um pouco, observando o sono tranquilo dos filhos que não eram seus.
Depois se ergueu devagar, e sem olhar para trás, deixou o quarto.

Ao fechar a porta, o som do trinco pareceu definitivo — como o ponto final de uma história que ele não queria ter vivido.

No corredor, o vento frio passou pelas janelas entreabertas, e Joshua sentiu um arrepio na pele.
O amanhecer chegava.
Mas dentro dele, o dia não nascia mais.

O Regresso Do Duque Histórias para pegar e não largar. Descubra agora