Princípio do Inverno

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O dia amanheceu cinzento, como se o próprio céu se recusasse a nascer. Joshua acordou antes que a luz atravessasse as janelas, sentindo o corpo pesado, a garganta seca, e o travesseiro frio onde o perfume de Désirée ainda parecia viver. Por um instante, ele se esqueceu de tudo — do que fora dito, do que fora destruído — e virou-se para o outro lado da cama, esperando encontrá-la ali. Mas encontrou apenas o lençol amarrotado e o espaço vazio.

O coração apertou, a lembrança voltou como uma lâmina.

Levantou-se devagar, caminhando até a janela. O ar da manhã era denso e úmido, e a névoa cobria o jardim como um véu.

Lá fora, o vento vergava as roseiras, arrancando pétalas que caiam ao chão como pequenos restos de amor. Aquelas flores haviam sido plantadas por ela. Ele se lembrava do dia — Désirée ajoelhada na terra, rindo com os cabelos presos, as mãos sujas de barro. Agora, as mesmas flores se desfaziam diante de seus olhos.

A porta se abriu às suas costas.
— Está acordado tão cedo... — disse Edward, a voz ainda rouca do sono, mas o olhar atento. — Não dormiu, não é?

Joshua não respondeu de imediato. Passou a mão pelo rosto, tentando parecer calmo, mas o tremor nos dedos o denunciava.

— Dormir... — murmurou. — É difícil dormir quando se descobre que a sua vida era uma mentira.

Edward deu um passo à frente, hesitante.
— Joshua, você não explicou nada. Disse apenas que era “melhor assim”. E não, não é. Mandar embora a mulher que você ama... e deixar as crianças sem a mãe é absurdo. Não sei o que...

— Não pronuncie o nome dela — cortou Joshua, com uma frieza que gelou o ambiente. — Não ouse.

O silêncio que se seguiu era quase palpável. Edward inspirou fundo.

— Eu não sei o que ela fez, mas o que quer que tenha sido...

— O que ela fez? — Joshua virou-se de súbito, os olhos faiscando. — Ela destruiu tudo. A confiança, o que restava de mim. Fingiu uma vida inteira, Edward. Uma maldita vida inteira. Me traiu, sei lá com quantos.

— Você realmente acredita que ela seria capaz disso? — perguntou o Edward, tentando conter a raiva que começava a se acender, por ouvir Josh falar assim de uma mulher que ele sabia ser digna. — Eu vi o modo como ela te olhava, Joshua.

Joshua riu, mas o som foi amargo.

— Acreditar? Eu acreditei nela todos os dias desde que comecei a amar ela. E foi assim que me tornei um idiota.

Edward deu um passo à frente, aproximando-se dele.

— Ela te esperou sete anos. Sete anos, Joshua! Enquanto você se escondia do mundo, ela criava as crianças, manteve o nome da família limpo, manteve essa casa viva. E é assim que você agradece? Jogando-a para fora como se fosse uma criminosa?

Joshua cerrou os punhos.

— Eu não a joguei fora. Eu a libertei da mentira que ela criou.

— Mentira que talvez você mesmo tenha alimentado — rebateu Edward, sem mais conter a voz. — Você fala como se fosse vítima, mas o que de tão mau ela pode ter feito quando você a largou, quando foi o primeiro a fugir!?

O som do soco ecoou pelo quarto antes que qualquer um deles percebesse o que acontecera. Edward cambaleou para trás, o lábio sangrando, o olhar ferido. Joshua respirava com dificuldade, o peito arfando, os olhos cheios de lágrimas que não queria deixar cair.

Edward limpou o sangue com o dorso da mão, sem revidar.

— Quem é você pra falar de fulga? — Joshua revidou. — Você entregou a mulher que dizia amar, mas mãos do seu irmãozinho.

Edward sentiu doer mais aquela frase do que qualquer soco.

— E onde ela está agora? Enterrada.

— Sabe o que é triste, Joshua? — disse Edward, com voz baixa. — Você está ser tornando o homem mais miserável que eu conheço. E não é por ter sido traído. É por não saber perdoar.

Virou-se, e antes de sair, lançou-lhe um último olhar.

— Quando você quiser agir como homem eu vou estar na minha casa.

A porta bateu, e o som ecoou pelo quarto.

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Os dias seguintes se arrastaram como invernos intermináveis. Joshua mergulhou em papéis, contratos, ordens.

Trabalhava até tarde, só para não pensar. As risadas das crianças ecoavam pelos corredores, misturadas ao som do vento que batia nas janelas. Às vezes, ele as ouvia brincando no jardim, e o riso delas lhe trazia um nó na garganta.

Alec costumava entrar no escritório, os cabelos bagunçados, os olhos grandes e curiosos.

— Papai, quando a mamãe volta?

Joshua travava.

As palavras morriam antes de nascer.

— Ela... foi visitar o avô de vocês — mentia, com um sorriso cansado. — Vai demorar um pouquinho, mas ela volta.

— E por que ela não mandou carta? — perguntava Ivy, encostada no batente da porta, apertando a boneca contra o peito.

— Porque o caminho é longo, meu amor. As cartas se perdem às vezes. Mas ela pensa em vocês todos os dias.

E quando eles saíam correndo, rindo novamente, Joshua sentava-se na poltrona e afundava o rosto nas mãos.

À noite, depois que os colocava para dormir, o silêncio da casa o esmagava. O relógio marcava as horas com crueldade. O som da bebida caindo na taça era o único consolo.

Bebia devagar, observando o fogo apagar-se na lareira. Às vezes, jurava ouvir o som da voz dela — uma risada breve, um chamado suave. Outras vezes, imaginava vê-la entrar pela porta. Mas era sempre o vento.

Sempre o vazio.

As semanas se tornaram um borrão. As flores do jardim murcharam, a neve cobriu o caminho, e o coração do duque tornou-se igual à terra fria lá fora: árido, pesado e impossível de renascer.

Ele não dizia mais o nome dela, mas todas as noites, quando o álcool já não bastava, murmurava baixinho, como uma confissão perdida:
— Eu te odeio... porque ainda te amo.

E depois disso, o copo caía, o fogo morria, e o silêncio voltava a reinar.

O Regresso Do Duque Histórias para pegar e não largar. Descubra agora