As semanas seguintes se estenderam como um longo e lento inverno.
Desde o dia em que Edward cruzara os portões do ducado e não voltara mais, a casa parecia menor. O eco dos passos se tornara mais alto, o som das portas mais oco.
Joshua evitava falar sobre o amigo — dizia a si mesmo que o afastamento era necessário, inevitável, mas no fundo sabia que havia perdido mais uma parte de si naquela discussão e que Edward tanto voltaria quanto estava na sua razão.
O duque passou a se prender ainda mais à rotina.
Trabalhava até tarde, revisando documentos que não precisavam de revisão, assinando ordens que podiam esperar. O escritório se tornara o seu refúgio e sua prisão. O cheiro de tinta e papel se misturava ao whisky que sempre repousava sobre a mesa. Às vezes, a chama da vela tremeluzia e projetava sua sombra nas paredes — uma sombra alta, distorcida, disforme. Ele olhava para ela e via algo que já não reconhecia.
Os dias se sucediam lentos. E, entre eles, o riso das crianças foi desaparecendo.
No início, Alec e Ivy ainda corriam pelos corredores, rindo, brincando de se esconder. Mas logo a casa foi ficando mais silenciosa. Ivy tossia à noite. Alec dormia mal. O médico fora chamado duas vezes, mas nada encontrara — “cansaço”, dissera, “falta de sol”. Joshua sabia que não era isso.
Era a falta dela.
Uma tarde, quando voltava do escritório, encontrou os dois sentados nos degraus do salão, abraçados, as bochechas coradas de febre e os olhos tristes.
— O que fazem aqui, pequeninos? — perguntou, tentando soar alegre. — O sol está se pondo, deviam estar se preparando para o jantar?
Ivy levantou o rosto, os olhos marejados.
— A gente... a gente tá esperando a mamãe voltar.
Joshua sentiu o coração falhar. A voz dele saiu rouca:
— Ela ainda não mandou carta? — Já sabia da resposta.
— Não — disse Alec, de cabeça baixa. — A tia Liz disse que o correio pode ter se atrasado. Mas eu acho que ela esqueceu da gente.
A frase atravessou Joshua como uma lâmina. Ele se ajoelhou diante deles, forçando um sorriso.
— Sua mãe nunca esqueceria vocês. Ela... só está resolvendo algumas coisas importantes, compreendem? Logo vai voltar. — E era verdade, Desirée podia ser tudo de ruim, mas era mãe mais maravilhosa que Joshua já viu.
— Quando? — perguntou Ivy, num sussurro. — É que... eu quase não lembro mais direito do rosto dela quando fecho os olhos.
Ele a abraçou. Forte demais, talvez. O pequeno corpo da menina se encolheu em seus braços, e Joshua sentiu as lágrimas subirem, mas as engoliu com força.
— Feche os olhos, meu amor. Ela sempre está aqui — mentiu. — Sempre estará.
Mais tarde, depois de colocá-los na cama, ficou observando-os dormir. O quarto das crianças cheirava a lavanda e lembranças. A boneca preferida de Ivy estava caída no chão. O cavalinho de madeira de Alec, quebrado ao meio, repousava sobre o tapete.
Joshua se abaixou, pegou o brinquedo e, por um instante, achou que o nó em sua garganta fosse o mesmo que o fazia querer beber todas as noites.
Mas o álcool não calava os ecos.
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Os criados sussurravam agora. Ele percebia.
Quando atravessava o corredor, as conversas cessavam.
Quando entrava na sala de jantar, os olhares se desviavam.
As mãos tremiam quando lhe serviam o copo.
E, por vezes, ouvia seu nome dito em meio a murmúrios — “o duque...”, “desde que ela se foi...”, “as crianças...”.
Joshua fingia não ouvir, mas sentia cada palavra como uma lasca sob a pele.
Nunca haviam olhado para ele assim. Nem quando voltou das cinzas, com metade do rosto queimado e o peso da partida nas costas.
Naquela época, olhavam com piedade. Agora, olhavam com medo.
— Talvez agora eu seja, enfim, o monstro que o fogo não conseguiu criar. —pensou em voz alta, observando o reflexo distorcido no vidro da janela.
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Certa noite, enquanto o vento uivava lá fora, Joshua desceu até a cozinha. As chamas da lareira lançavam luzes alaranjadas sobre o chão de pedra. Ele abriu uma garrafa e serviu-se até transbordar a taça.
Quando ergueu o copo, ouviu passos leves atrás de si.
Era Alec.
O menino arrastava o cobertor e coçava os olhos sonolentos.
— Papai?
— O que faz fora da cama, rapazinho?
— Eu sonhei com a mamãe. — A voz saiu embargada. — Ela estava chorando. E... e chamava o meu nome.
Joshua engoliu o vinho como quem engole veneno.
— Foi só um sonho, Alec. Vá dormir.
— O senhor também sente falta dela, não sente? — perguntou o menino, e o olhar dele, tão puro, o despedaçou.
Joshua se abaixou, encostando a mão no cabelo do filho.
— Sinto. Todos os dias. Mas há coisas... que nem mesmo o amor pode consertar.
O menino franziu o cenho, confuso.
— Mas a mamãe consertava tudo.
Joshua desviou o olhar, e o silêncio foi a única resposta.
Quando o menino voltou para o quarto, ele ficou ali, sozinho, observando o fogo que consumia as brasas lentamente. O som da madeira estalando lembrava o som da voz dela dizendo seu nome pela última vez.
E o álcool, o maldito álcool, era o único que ainda lhe fazia companhia.
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As semanas seguintes trouxeram o frio mais severo do ano. A névoa invadiu os jardins e o lago congelou. As crianças adoeceram de novo — não era febre, nem tosse.
Era saudade.
Sophie e Liz cuidavam delas, incansável, e olhavam para Joshua com algo que ele não suportava ver: decepção.
Não diziam uma palavra, mas os olhos delas falavam demais.
Joshua sabia que ambas se correspondiam com Desirée, era um direito delas. Sabia que a mulher não contaria a verdade para as moças, então era de se esperar que as duas ficassem no ducado para cuidar dos sobrinhos, mas não manteriam nenhuma cordialmente com o duque, já que, muito provavelmente, eles soubessem somente de meias verdades.
Certa manhã, enquanto Joshua subia um escada no corredor, ouviu o cochicho de uma criada:
— Dizem que foi ele quem mandou a duquesa embora.
— E por quê? — perguntou outra.
— Ninguém sabe ao certo. Mas olhe pra ele... parece que o fogo voltou pra dentro.
— Uma mulher tão boa, não merecia um homem assim.
Joshua parou, os punhos cerrados.
Quis gritar, punir, expulsar todos. Mas a voz não saiu. Apenas fechou os olhos, sentindo o peso do que se tornara.
O fogo, de fato, voltara pra dentro.
E o que queimava agora não era mais carne — era alma.
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O Regresso Do Duque
Storie d'amoreLIVRO I (Série Return) Lorde Joshua Falstron sempre foi o preferido de seu pai, algo que se tornou um grande fardo para ele. Sua vida foi marcada pela falta de respeito às suas escolhas, com decisões sendo tomadas por outros. Até que um dia ele deci...
