A manhã chegou preguiçosa sobre Thornton Hall, tingindo de dourado as cortinas do quarto. Joshua despertou antes que o sol subisse por completo, e por um instante permaneceu ali, imóvel, observando o corpo de Desirée adormecido ao seu lado.
O lençol mal cobria a curva de seu ombro, e uma mecha solta de cabelo repousava sobre o rosto tranquilo. Havia um ar de inocência misturado à lembrança do desejo que os consumira poucas horas antes. Ele passou a mão devagar por aquele cabelo castanho e, sem conseguir conter o sorriso, lembrou-se do som dos gemidos dela, da ousadia doce e do olhar firme que o encarava mesmo de joelhos.
Uma mistura de orgulho e ternura o atravessou como um golpe suave. Como ela conseguia fazê-lo sentir tanto, em tão pouco tempo?
Joshua levantou-se em silêncio, vestiu uma camisa leve e desceu para o café. O aroma de pão quente, café forte e terra molhada o recebeu como uma velha canção familiar. Edward já estava à mesa, como sempre, lendo o jornal com o semblante divertido de quem já planejava provocações matinais.
— Ora, se não é o duque de olhar sereno — comentou ele sem erguer os olhos. — Dormiu bem, Joshua?
— Melhor do que imaginei que seria possível — respondeu, servindo-se de café.
Edward levantou o olhar, analisando-o de cima a baixo com um meio sorriso.
— Há algo diferente em você. Sua pele está... radiante.
Joshua arqueou uma sobrancelha.
— Radiante?
— Sim, como quem tem dormido ao lado de um milagre. Ou de uma mulher determinada. — Edward deu um gole no café, debochado. — Aposto minhas bolas que o segredo é o casamento.
— Aposte o que quiser, mas não se meta em assuntos que não lhe dizem respeito, ou seja meu casamento.
— Pelo contrário, dizem-me sim — retrucou Edward, divertido. — Afinal, estou prestes a conviver com um duque sorridente. Isso muda toda a rotina da casa.
Joshua apenas balançou a cabeça, tentando disfarçar o riso que ameaçava surgir. Edward parecia satisfeito em tê-lo provocado.
— Preciso ajudar os trabalhadores no campo antes que o sol castigue demais — disse, levantando-se. — E você?
— Tenho umas contas antigas e documentos do ducado que quero revisar. — Joshua terminou o café e limpou as mãos com o guardanapo. — A responsabilidade não dorme, diferente de certos cavalheiros.
— Nem sempre, meu caro. Às vezes, ela apenas se deita com alguém mais interessante. — Edward piscou, deixando o salão sob o riso contido do amigo.
Joshua ficou ali por alguns segundos, em silêncio. O calor do café ainda em sua garganta misturava-se ao calor da lembrança. Ele podia quase sentir de novo as mãos de Desirée sobre ele, o som suave da respiração dela, o toque tímido que se tornava ousado.
Inferno. Como poderia concentrar-se em qualquer outra coisa depois daquilo?
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Mais tarde, já em seu escritório, o sol filtrava-se pelas cortinas, formando listras de luz sobre a mesa coberta de papéis. Joshua abriu o cofre, tirou uma pequena caixa de madeira e começou a organizar os antigos documentos do ducado: registros de propriedades, contratos de arrendamento, contas de impostos. Coisas simples, rotineiras.
Mas por mais que tentasse mergulhar nos números e assinaturas, a mente insistia em escapar.
Cada vez que seu olhar pousava em algo branco, lembrava-se do brilho da pele de Desirée à luz da lua.
Cada vez que ouvia o som do vento, recordava o som dos lábios dela encontrando os seus.
E cada vez que respirava, o ar lhe trazia o perfume dela — uma mistura de jasmim e desejo.
Tentou afastar os pensamentos, mas não conseguiu.
O desejo o perseguia de modo quase cruel, lembrando-o de que, pela primeira vez em muito tempo, havia algo mais forte do que a própria dor: o amor que começava a florescer entre eles.
Suspirando, abriu outra pasta, e uma nuvem de poeira ergueu-se no ar. Tossiu levemente e empurrou alguns papéis velhos, revelando uma caixa mais antiga, escondida atrás de um conjunto de livros contábeis. Era diferente — menor, feita de madeira escura e com o brasão da família gravado na tampa.
Curioso, Joshua a puxou e a abriu com cuidado. Dentro dela havia envelopes, documentos antigos… e algo que o fez parar.
Cartas.
Muitas cartas, todas endereçadas ao falecido duque de Thornton.
O nome de seu pai.
Joshua franziu o cenho. Passou os dedos sobre um dos envelopes e sentiu o coração apertar.
A caligrafia era suave, feminina.
Conhecia aquela letra.
Era de Desirée.
Ele engoliu em seco e apoiou-se na borda da mesa. As cartas estavam todas abertas — já lidas, manuseadas. Um arrepio percorreu sua espinha.
Não sabia por onde começar.
Nem se deveria começar.
Parte dele queria afastar-se dali, fingir que nunca as vira. Outra parte — a mais humana, a mais atormentada — precisava saber o que ela havia escrito. Precisava entender o que acontecera naquele tempo em que ambos viveram em mundos diferentes, separados por segredos e dor.
Joshua fechou os olhos e respirou fundo, tentando reunir coragem.
A lembrança da noite anterior o atingiu com força — o olhar de confiança de Desirée, o modo como ela se entregara sem reservas.
Ela confiava nele.
E era justamente por isso que ele temia ler aquelas cartas.
Temia descobrir o quanto a havia ferido antes de merecer novamente aquele olhar.
Ficou ali, imóvel, a caixa aberta diante de si, o passado respirando junto com o presente.
E pela primeira vez, Joshua sentiu que o verdadeiro peso de seu título não estava nos papéis, mas nas descobertas que ele tentava evitar.
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O Regresso Do Duque
RomanceLIVRO I (Série Return) Lorde Joshua Falstron sempre foi o preferido de seu pai, algo que se tornou um grande fardo para ele. Sua vida foi marcada pela falta de respeito às suas escolhas, com decisões sendo tomadas por outros. Até que um dia ele deci...
