Ciúmes

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Joshua encostou o ombro no batente da porta, a sombra da tarde desenhando linhas duras sobre seu rosto.
Observava-os sem ser visto, como quem contempla algo precioso que já não lhe pertence.

Désirée inclinava-se sobre Michael, ajeitando o xale em seus ombros com uma delicadeza quase materna. E ele permitia. Aceitava com um sorriso vazio, como um homem perdido que não sabia mais a quem pertencia.

Alec sentava-se a seus pés, olhando-o com uma esperança muda, como se, de alguma forma, pudesse reatar os laços partidos pelo tempo. Ivy, sempre tão viva, fazia perguntas, contava histórias, tentando forçar, à base de amor, que a memória adormecida de Michael despertasse. Até Liz, tão contida, aproximava-se de tempos em tempos, oferecendo-lhe chá ou um cobertor extra, enquanto Sophie, a irmã de sangue, parecia derramar sobre ele toda a saudade acumulada dos anos que os separaram.

Joshua sabia.
Sabia que era natural.
Sete anos era muito tempo para pedir que as pessoas esperassem de olhos fechados, com o coração intacto.
Era egoísmo. Infantilidade. E, ainda assim, a inveja latejava sob sua pele como uma febre amarga.

Ele tentou se convencer de que era o homem maduro que sempre fingira ser. Que podia entender o que via.
Mas o que o destruía não era a ternura dos filhos.
Não era a consideração de Liz ou a alegria de Sophie.

Era Désirée.
Era o modo como ela tocava Michael.
Era o modo como ajeitava seus cabelos desalinhados, como lhe falava baixo, como lhe sorria — não o sorriso que ela reservava aos outros, mas aquele... aquele sorriso feito de pena, de amor, de compaixão.
Sorriso que um dia fora dele.

Joshua cerrou os punhos ao lado do corpo, lutando contra o impulso de atravessar a sala e arrancá-la daquele pequeno altar em que todos pareciam venerar Michael.
Detestava vê-la tão próxima.
Detestava cada centímetro de distância que ela cruzava para alcançá-lo.

E, mais do que tudo, detestava o homem que se tornara — mesquinho, ciumento, frágil — depois de tudo o que jurara proteger.

Afastou-se da porta sem fazer ruído, carregando consigo a amarga certeza de que, às vezes, perder não era uma explosão repentina. Era um esvaziar lento, uma ausência que crescia até engolir tudo.

E ele já começava a afundar.

Joshua empurrou a porta do escritório com um gesto seco, atravessando a sala até a mesa como se estivesse fugindo de algo que ameaçava engoli-lo.
Agarrou a garrafa de uísque como um náufrago se agarra a uma tábua e serviu-se sem cerimônia.

A bebida queimou sua garganta, mas não foi suficiente para entorpecer o que fervilhava dentro dele.

Minutos depois, a porta rangeu e Edward entrou, o sorriso insolente já pronto no rosto.

— Então é aqui que vem se esconder das maravilhas do convívio familiar? — provocou, jogando-se em uma poltrona com a naturalidade de quem invadia o espaço alheio com frequência.

Joshua lançou-lhe um olhar de advertência, mas Edward apenas riu, puxando um charuto do bolso interno do paletó, embora soubesse que Joshua detestava o cheiro.

— É uma festa lá fora — continuou Edward, acendendo o charuto com exagerada calma. — Quase me senti tentado a entrar na dança. Só faltou música e um brinde a "Ben, o Ressuscitado".

Joshua sorveu mais um gole antes de responder, a voz embebida de sarcasmo:

— Se está incomodado, sabe onde fica a porta.

— Ah, eu estou me divertindo — retrucou Edward, soprando a fumaça para o teto. — É fascinante ver como todos se desmancham em adoração por aquele pobre diabo. Inclusive... — ele estreitou os olhos, sorrindo como quem encontra algo interessante — ...inclusive sua doce esposa.

Joshua pousou o copo com mais força do que gostaria.

— Cuidado com o que insinua, Edward.

O outro levantou as mãos, teatral:

— Apenas constatando o óbvio. Você está com ciúmes.

Joshua soltou uma risada seca, mais amarga do que divertida.

— Não seja ridículo. — Inclinou-se para trás na cadeira, o rosto sombrio. — Eu não sou desses que se interessam em ter um casamento real.
— Deixou escapar, como se fosse uma verdade endurecida pelo tempo. — Apenas quero o bastante para deitar-me com minha esposa de vez em quando. Nada além disso.

O silêncio que se seguiu foi pesado, incômodo.
Edward, por uma rara vez, pareceu sem resposta imediata.

Mas não foi a expressão do amigo que capturou a atenção de Joshua.
Foi o som.

Um gemido baixo, quase inaudível, vindo da porta entreaberta.

Joshua virou-se a tempo de ver Désirée parada ali, as mãos crispadas nas saias, o rosto tão pálido que por um instante ele pensou que fosse desmaiar.

Os olhos dela — aqueles olhos que tantas vezes o buscaram na escuridão — agora o atravessavam como lâminas.

Sem dizer uma palavra, ela se virou e saiu apressadamente, quase tropeçando nos próprios pés.

O arrependimento foi imediato, brutal.
Joshua empurrou a cadeira para trás, levantando-se de um salto.

— Maldição — rosnou entre dentes, lançando a Edward um olhar de ódio, como se a culpa pudesse ser dele.

E então, sem pensar, correu atrás dela.
Porque, apesar de todas as suas defesas tolas e mentiras patéticas, Joshua sabia: perder o coração de Désirée era o único naufrágio que não sobreviveria.

Joshua atravessou o corredor com passos largos, o eco das botas ressoando como batidas de um tambor fúnebre.
Viu a barra do vestido de Désirée dobrando a esquina e acelerou, ignorando os olhares curiosos de criados que surgiam pelas frestas das portas.

— Désirée! — chamou, a voz rouca de urgência. — Espere!

Ela não parou.
Não diminuiu o passo.

Joshua a alcançou perto da escada, sua mão fechando-se ao redor do pulso delicado com mais força do que pretendia.
Désirée virou-se com um sobressalto, e foi como olhar para um espelho partido: o rosto dela era todo dor e incredulidade.

— Solte-me — disse ela, a voz baixa, fria, mas trêmula.
Não era um pedido. Era uma ordem.

Joshua obedeceu de imediato, soltando-a como se tivesse tocado fogo.
Mas não recuou.

— Désirée, não era isso que eu queria dizer — tentou, as palavras atropelando-se em sua boca, tão pesadas que pareciam engasgar em sua garganta. — Você... você ouviu só parte... Eu não...

— Parte? — ela interrompeu, o olhar brilhando de lágrimas que se recusavam a cair. — Ouvi o suficiente, milorde.

"Milorde."
Aquela palavra, dita assim, com tanta distância, feriu-o mais do que um punhal cravado no peito.

— Eu estava tentando afastar Edward. Ele... ele provoca — balbuciou Joshua, buscando desesperadamente alguma ponte que a alcançasse. — Eu jamais...

Désirée ergueu a mão, como quem pedisse silêncio.
Mas era mais que isso. Era um gesto de rendição.

— Não precisa se explicar, milorde. — A voz dela era suave como um lamento. — Afinal, somos apenas isso, não é? Uma conveniência ocasional. Uma obrigação...

Ela desviou o olhar, apertando as mãos contra o próprio corpo como quem tentava segurar o coração quebrado.

Joshua deu um passo à frente, impulsivo, querendo tocá-la, mas parou no último instante, sentindo que qualquer contato agora seria uma violência.
E ele já a machucara demais.

— Désirée, por tudo que é mais sagrado... eu... — Ele fechou os olhos por um breve instante, lutando contra o orgulho, contra o medo. — Você é muito mais do que isso para mim. Eu sou um tolo, um covarde. Mas você... você é tudo o que me mantém de pé.

Ela o fitou por um segundo. Apenas um.
E nesse breve instante, Joshua viu que talvez ainda houvesse esperança — tênue, machucada, mas viva.

Sem dizer mais nada, Désirée virou-se e subiu as escadas com passos leves e firmes, deixando-o sozinho no corredor, com a alma despedaçada entre as mãos vazias.

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