A noite caíra sobre o solar como um manto pesado. O vento atravessava o jardim arrancando folhas e pétalas das roseiras, que se espalhavam pelo chão como vestígios de uma vida que ela não poderia mais viver. O céu parecia chorar com ela — uma garoa fria, insistente, molhava os degraus da entrada.
Desirée desceu lentamente, o vestido escuro colando-se às pernas, a mala pequena nas mãos trêmulas. Cada passo soava como e era uma despedida. Michael vinha logo atrás, em silêncio, carregando outra mala. O cocheiro aguardava junto à carruagem, o olhar baixo, respeitoso, como se sentisse que presenciava o fim de algo que não devia ter terminado.
Ao chegar à porta, Desirée parou. Olhou para trás uma última vez. As janelas da casa já estavam apagadas. O quarto de Joshua, lá em cima, tinha luz. Por um instante, seu coração se apertou — parte dela esperava vê-lo surgir ali, arrependido, chamando-a, pedindo-lhe para ficar.
Mas nada.
Nenhum movimento.
Nenhum som.
Só o silêncio.
O silêncio e o frio.
—Desirée… precisamos ir. — Michael tocou levemente o braço dela. — Não seria bom se as crianças nos verem.
Ela assentiu devagar, os olhos marejados.
—Sim… eu sei. — respirou fundo, tentando conter o soluço. —Só… me dê mais um segundo.
Michael esperou. E ela, com a voz quebrada, sussurrou para si mesma:
—Adeus, meu amor.
Então subiu na carruagem.
As rodas começaram a se mover, e o som ritmado contra o chão molhado preencheu o vazio entre eles. A casa ficou para trás, cada vez menor, até desaparecer completamente na escuridão.
Desirée olhava pela janela, sem ver nada. Só pensava no rosto dele — no olhar que antes a aquecia e que, nas últimas horas, se tornara lâmina.
—Ele não quis nem me ouvir — murmurou — Eu tentei… juro que quis explicar, mas não podia.
—Ele estava furioso. Nenhum homem em sã consciência entenderia aquilo de imediato. — Michael suspirou.
Ela virou-se para ele, os olhos marejados.
—Mas não era só raiva, Michael. Era ódio. E o pior é que eu entendo. Eu também me odiaria se estivesse no lugar dele.
—Você fez o que achou certo — disse ele, baixo. —Mas esconder a verdade tem um preço alto demais.
Ela passou as mãos pelos olhos, exausta.
—Eu sei. E agora estou pagando.
—Por que não contou tudo? — ele perguntou, virando-se para encará-la. —Por que não disse que as crianças não são suas? Que nunca teve amante algum?
Desirée abaixou o olhar, os dedos apertando o tecido do vestido.
—Porque ele podia tirar tudo de mim. — a voz mal saía. —Podia tomar as crianças, Michael. E eu… eu não suportaria perdê-las também.
Michael desviou o olhar, o maxilar tenso.
—Você o ama, não é?
—Sim. — Ela respirou fundo, e as lágrimas vieram de novo, mas confessou num sussurro. —Mais do que imaginei que fosse possível. E é por isso que dói tanto.
—Você não merece esse tipo de dor, Desirée.
—Não diga isso. — ela balançou a cabeça. —Eu mereço, sim. Menti pra ele. Menti pra todos. Mesmo que tenha sido para proteger… ainda foi mentira.
O silêncio voltou, e a carruagem continuou seu caminho. O vento frio entrava pelas frestas, misturando-se ao perfume adocicado do vestido dela.
—Sabe o que é mais cruel? — ela continuou, olhando para o nada. —Ele acreditava em mim. Acreditava no que estávamos construindo. Mesmo que não dissesse em voz alta… eu via. No olhar. No toque. E agora… — a voz se quebrou — agora tudo o que ele sente é repulsa.
—Ele está magoado, Desirée. Isso é diferente de ódio.
—Não, Michael. — ela o interrompeu — Eu vi. Era ódio. Ele me olhou como se eu fosse o pior tipo de mulher que existe. Como se tudo o que vivi com ele tivesse sido fingimento.
Michael abaixou o olhar.
—Ele vai se arrepender de dizer isso.
—Não vai. — ela respondeu de imediato. —Joshua não é homem de se arrepender. Ele é orgulhoso demais. E eu o feri onde mais doía: no nome, no sangue, na honra.
Ela encostou a cabeça na parede da carruagem, os olhos fixos no escuro.
—E pensar que, no início, eu o odiava. Que o desprezava com todas as forças. — riu sem humor. — E agora, olha só pra mim… indo embora como uma criminosa, desejando apenas que ele me amasse de novo.
—Você vai reconstruir a vida, Desirée. — Michael tocou a mão dela.
—Como? — perguntou com amargura. —sem meus filhos, minhas irmãs? — ela riu, triste. — É preferível não viver.
—Jamais diga isso novamente, Day.
Ela respirou fundo, olhando pela janela embaçada.
—Eu não usei a palavra certa, Michael. É só que o sofrimento me espera de portas abertas.
O silêncio caiu outra vez. A carruagem seguiu, envolta pela escuridão e pela chuva miúda.
Por fim, ela murmurou, quase sem voz:
—Eu deixei tudo lá… e tudo o que eu amo está naquela casa.
Michael a puxou para um abraço.
—Você ainda tem os filhos, Desirée.
—Não por muito tempo, se ele descobrir o resto.
Ele a apertou contra o peito, tentando protegê-la de um mundo inteiro que parecia querer destruí-la. Mas dentro dela já não havia abrigo — só a lembrança de um amor que nasceu tarde demais e morreu cedo demais.
E lá fora, o frio se tornava mais intenso. O céu cinza se desmanchava em gotas. A carruagem seguia pela estrada molhada, levando consigo uma mulher que havia perdido tudo — menos o amor que, apesar de impossível, ainda pulsava dentro dela como uma ferida aberta.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Regresso Do Duque
RomanceLIVRO I (Série Return) Lorde Joshua Falstron sempre foi o preferido de seu pai, algo que se tornou um grande fardo para ele. Sua vida foi marcada pela falta de respeito às suas escolhas, com decisões sendo tomadas por outros. Até que um dia ele deci...
