Capítulo 87

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Escuridão. Era tudo o que Natasha conseguia ver naquela sela mal iluminada desde que os militares a enfiaram naquele fim de mundo. Ainda estava no pentágono, disso ela sabia, porque por mais estivesse oscilando entre a consciência e a insanidade, tinha experiência suficiente pra reconhecer o caminho que tinham percorrido. Aquilo era uma prisão temporária, até que a confusão lá em cima fosse resolvida e o governo assimilasse a idéia de que ela continuava viva. Ela nem conseguia imaginar as teorias que estavam rondando o salão lá em cima, principalmente porque o que os dois tinham feito aos olhos de outros, poderia parecer um ataque ao Estado. Os dois. Suspirou, se negando a digerir a idéia de que não veria mais seu marido. Ele estava morto.
O cheiro de mofo invadiu as suas narinas, num lembrete claro do espaço onde se encontrava. Sua mente parecia um pouco anestesiada, e mal conseguia raciocinar claramente, mas algo no seu interior lutava com a idéia de permanecer naquele limbo. Já fazia horas que as lágrimas desciam incessantemente pelo seu rosto, e seus olhos estavam tão inchados que pernanecer com eles abertos tinha se tornado um incômodo. Os sons, o cheiro, eram as coisas que prendiam a sua mente na realidade, e apesar ouvir poucas coisas por ali conseguiu se concentrar no mofo da parede.
Passos. O eco ritmado de passos naquele andar foram a sua salvação, uma âncora que despertou a mente pela curiosidade de saber o que aconteceria a seguir. Do canto escuro onde estava, ela viu claramente quando dois soldados jogaram um homem na sala em frente, totalmente machucado. Oliver tinha passado por um interrogatório intenso, e dado o olhar intenso dos soldados dentro da sela dela antes de sair, suspeitou que em breve seria a sua vez.
O homem se apoiou na parede, limpou o sangue do rosto com a própria camisa e verificou os esparadrapos que as enfermeiras tinha feito nos ferimentos de bala. Um resmungo de dor escapou dos seus lábios quando tentou melhorar a posição incômoda no chão, mas o que realmente aumentou seu sofrimento foi encontrar a responsável por aquilo na sela da frente.

-Só pode ser brincadeira...-sussurrou, inconformado.

Natasha desviou olhar, sem qualquer disposição para aguentar aquele sujeito por mais tempo.

-Eu disse que sou um clone. -Sussurrou. -Eles vão perguntar...e você precisa dizer que...

-Eu não preciso dizer nada.-interveio.

A voz saiu tão rouca, que Natasha mal reconheceu a própria voz.

-Pra segurança de...

-Enfia a segurança no seu rabo. -Resmungou, olhando na sua direção.-Eu não te devo nada, e não me importo se o governo decidir te usar como rato de laboratório o resto da vida.

-Se fizer isso, não vou ser o único afetado.

-É? -ergueu uma sobrancelha, disposta a despejar toda a sua raiva sobre ele.-Aposto que consigo proteger a minha família, e você?

-Estamos falando da sua prima!- frizou, irritado.

-Sério? -ironizou, e deu de ombros.-Eles não são problema meu.

Ela mentiria se dissesse que não se importava com eles, mas deu tudo de si pra fingir que não se importava nem um pouco e piorar ainda mais o estado de raiva do outro.

-Você perdeu a sanidade?! -Questionou, indignado. -Perder um homem te deixou sem juízo?

-Deve ser difícil se olhar no espelho.

A fúria fez ele levantar e se jogar contra as grades.

-Nós vamos passar o resto da vida aqui! Vamos ser interrogados, torturados, e você jamais vai voltar a ver os seus filhos! É isso o que você quer?!

Ao contrário do que ele esperava, o descurso não provocou nenhuma sombra de medo no rosto da mulher, que pendeu o rosto para atrás e soltou um risada alta.

B.M ConsanguineoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora