Capítulo 82

183 18 107
                                        

A madrugada soprava um vento frio pela floresta, e as poucas roupas que o casal tinham para emprestar pareciam insuficientes, principalmente porque Natasha preferiu que o filho recém nascido tivesse o máximo de proteção possível. O dia já estava amanhecendo, quando ela espiou pela janela e percebeu que o guarda do dia anterior continuava ali, numa vigília que seria facilmente vencida se ela estivesse realmente em condições de lutar. Seu corpo ainda estava se recuperando, e isso nem era um problema importante, a questão é que jamais poderia expôr o filho recém nascido as consequências de uma fuga. Precisava sair dali, mas tudo deveria ser extremamente planejado, porque havia um longo caminho até chegar a cidade.
Acomodou o pequeno Christopher no colo, de forma que o bebê soltou um resmungo baixinho de satisfação e continuou dormindo. Desde que saiu da sua barriga, ele tinha acordado somente duas vezes por conta da fome e do intestino solto. Mas no geral, era o mais calmo do seus filhos.

-Aslan...-sorriu minimamente, traçando os detalhes do rosto dele com o indicador. -Vamos sair dessa, e você vai conhecer o seu pai...ele vai desmaiar de susto.

O som de passos na cozinha chamou a sua atenção para o casal que tinha acabado de levantar, e um aceno de cabeça foi o suficiente para cumprimenta-los.

-O café da manhã acontece no refeitório.-Informou Fernando. -Mas assim que sair daqui, o chefe vai querer falar com você.

-Que tipo de conversa posso esperar?

-Não sei...-suspirou. -Não é comum a chegada de mais empregados, e o bebê classifica a sua mão de obra como...inútil...ele é recém nacido e precisa da sua total atenção.

-O que pode acontecer? Vão me expulsar?

-Você sabe a localização da nossa comunidade. Pode denunciar, e todo mundo aqui vai pagar o preço. É bem provável que receba um serviço flexível.

-E por que isso parece ruim?

-Porque quanto menor for a sua carga horária, menor será o seu salário.

-Quantos quilômetros estamos do muro?

-Dos muros? -franziu a testa. -Isso está a oeste.

-Me perdi da minha família na confusão, mas marcamos um ponto de encontro lá perto.

-Estamos longe, e você não pode andar tanto com essa criança no colo.

-Vocês tem algum veículo?

-Não tente roubar. Já tentaram isso antes, e as consequências não vão ser boas.

-Tem ou não? -frizou.

-É difícil chegar lá. -suspirou. -Por favor, esqueça essa idéia absurda.

-Agradeço o conselho, mas não posso passar a vida aqui, e aparentemente nem vocês estão felizes de viver nesse lugar. Não é?

-Não temos muitas opções.

-Ouviu falar da queda dos muros?

-Queda dos muros? -ergueu uma sobrancelha.-Isso é impossível.

-É real.

-Como pode ter certeza?

-O nosso acampamento não era tão isolado assim. -apontou ao redor.

-Está falando sério?

-Aham. Os rumores indicam que o governo caiu.

-Então nós podemos entrar?!

-Não exatamente. -enrrugou o nariz. -Mas ouvi falar de famílias que conseguiram.

-Então as chances são baixas.

B.M ConsanguineoDonde viven las historias. Descúbrelo ahora