Eu sou Lucas, não Luke!

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O ar naquele quarto, similar a um santuário ancestral, antes estava carregado de um desespero tão denso que parecia capaz de rachar as próprias paredes de mármore sagrado. Subitamente, a atmosfera se estabilizou.

A palavra Pai, pronunciada pela voz de Lucas — uma voz que agora carregava tanto o peso de séculos de história oculta quanto a leveza etérea de uma bênção divina —, ecoou pelo recinto como o badalar de um sino de catedral após a pior das tempestades.

O Imperador estancou no lugar. O tremor em suas mãos, que até um segundo atrás era reflexo de uma agonia pura e dilacerante, transformou-se em um choque paralisante. Ele olhou para Lucas com os olhos arregalados; não mais como o mago insolente de Obelia, tampouco como o paciente que tentava curar por mera obrigação paterna. Ele via ali a extensão viva, pulsante e inegável da mulher que amou além da própria vida.

Hades levantou-se lentamente, amparado pela mão firme e surpreendentemente calorosa de Lucas. Naquela fração de segundo, o Imperador parecia ter envelhecido e rejuvenescido dez anos simultaneamente. Com os dedos trêmulos, levou a outra mão ao rosto de Lucas, tocando a pele agora corada. Ele traçou a linha do maxilar — que era o espelho exato do seu — e fixou o olhar naqueles olhos que, embora carmesins como os seus próprios, brilhavam com uma compaixão profunda que só Aisha possuía.

"Meu filho..." Sussurrou Hades, a voz reduzida a um fio quebrado de pura emoção. "Você a viu... Ela realmente falou com você..."

O Imperador não perguntou como aquilo foi possível. Em um mundo governado por magos antigos, deuses e demônios implacáveis, o milagre do amor materno não precisava de explicações lógicas. Ele simplesmente puxou Lucas para um abraço. Não era o toque cauteloso ou cerimonioso de um estranho, mas o abraço esmagador e desesperado de um pai que finalmente recuperava a metade perdida de sua própria alma.

Agnes, observando a cena à distância, permitiu que as lágrimas rolassem livremente por seu rosto. Ela olhou para Lucas, seu irmão, o gêmeo perdido, o príncipe lendário de quem só ouvira histórias sussurradas pelos corredores vazios do palácio. Naquele instante, a rivalidade silenciosa, a dúvida cortante e a distância gélida que sentia por ele evaporaram por completo.

Lucas, retribuindo o abraço com uma força que nem sabia que possuía, sentiu a mana de Hades. Aquela energia escura, massiva e poderosa, que outrora parecia opressiva e assustadora, agora fundia-se à sua própria de forma perfeitamente harmoniosa, como se duas correntes de um mesmo rio finalmente se reencontrassem.

Contudo, mesmo no ápice dessa catarse emocional, um pensamento cortou sua mente como uma lâmina de gelo, trazendo-o abruptamente de volta à urgência do presente. — Se estou em Sycansia... como Athanasia reagiu ao meu desaparecimento? — A lembrança distante do choro desesperado de um bebê mexeu com suas estruturas mais profundas.

Apesar de ter visto nas memórias de Hades que seu corpo estava "incapacitado", Lucas percebeu que sua atual estrutura musculosa e imponente não era mera estética. Era uma adaptação biológica e mágica necessária para suportar a mana demoníaca avassaladora que corria em suas veias agora.

Lucas afastou-se ligeiramente, mantendo as mãos firmes nos ombros de Hades. O terno real branco que vestia, o recente presente de Aisha, brilhava com uma luminescência suave e reconfortante.

"Pai..." Disse Lucas. A palavra soou mais natural agora, embora ainda guardasse um sabor estranho e inédito em sua língua. "Eu entendo quem eu sou agora. Mas eu vi... eu absorvi algo nas suas memórias recentes. O que exatamente aconteceu em Obelia enquanto eu estava apagado?"

Seus olhos carmesim brilhavam com uma urgência abrasadora que nem mesmo o título de Príncipe recém-descoberto conseguia aplacar. Ele sentia o peso da mana sycansiana pulsando em suas veias, mas sua mente estava a quilômetros dali, presa no eco do choro de um recém-nascido e no calor do último toque que recebeu de Athanasia.

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