O Pupilo Herdeiro da Torre Negra

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Os passos de Lucas e Cabel ecoavam de forma ritmada pelos corredores revestidos de obsidianas polidas do palácio de Sycansia. O silêncio que se instalou entre os dois era palpável, quebrado apenas pelos resmungos baixinhos e quase imperceptíveis do pequeno Lucius, que agora estava encolhido no colo do príncipe arlantino.

Lucas fez questão absoluta de afastar-se da mesa de carvalho de seu pai, assumindo a liderança do caminho para guiar o pupilo pessoalmente até os aposentos reais reservados. Cabel aceitou o convite de imediato. No fundo de sua alma exausta, ele sabia que aquela era a melhor alternativa; precisavam conversar a sós, longe dos olhos analíticos do Imperador Hades e da postura severa da Princesa Agnes. Os segredos que envolviam a fenda dimensional, o colapso de Obelia e a real situação da outra dimensão eram complexos e perigosos demais para serem debatidos de forma tão aberta.

Quando as imensas portas de madeira esculpida dos aposentos se fecharam atrás deles, isolando-os do resto do palácio por meio das runas de silêncio cravadas nos batentes, Cabel soltou uma lufada de ar pesada. Ele ainda segurava o bebê com uma rigidez defensiva, os ombros tensos e os olhos azuis fixos nos movimentos calmos de seu mestre. O clima desconfortável que havia se construído no pátio - pavimentado pelo pavor e pela desconfiança mútua - ainda flutuava entre eles como uma névoa fina.

Lucas caminhou até o centro do suntuoso quarto, parando diante de uma grande lareira apagada. Ele manteve as mãos enfiadas nos bolsos de suas vestes de treino por alguns segundos, observando a postura arisca de Cabel. O Mago da Torre Negra, agora ostentando o porte imponente de um Príncipe Herdeiro despertado, soltou um suspiro audível. O orgulho costumava ser sua armadura inseparável, mas, olhando para o estado deplorável e exausto de seu pupilo, ele decidiu deixá-la de lado por um momento.

"Cabel..." Lucas começou, sua voz assumindo um tom invulgarmente suave, desprovido de qualquer traço de deboche ou arrogância aristocrática. "Eu sinceramente, peço desculpas por como agi lá fora, no pátio."

Cabel piscou, pego de surpresa pela raríssima demonstração de contrição de seu mestre.

"O meu núcleo... ele foi completamente inundado de poder quando esse maldito selo quebrou. Um selo que eu nem sabia que tinha... Eu ainda estou lutando para calibrar a densidade dessa mana." Explicou Lucas, virando-se lentamente para encarar o príncipe de Arlanta. Seus olhos carmesim, embora intensos, não carregavam mais aquela fome predatória de antes. "Mas eu quero que você saiba, de uma vez por todas, que eu jamais machucaria uma criança. Eu nunca faria mal a um bebê... principalmente a um que a Athanasia ama e cuida como se fosse dela. Eu sei o que ele representa para ela. E sei o que ela representa para mim."

Lucas deu um passo lento e hesitante na direção de Cabel, estendendo os braços de maneira contida, oferecendo-se implicitamente para segurar o pequeno embrulho.

Por um puro instinto impulsivo e traumático - alimentado pela lembrança do monstro que usou a face de Lucas em Obelia -, os músculos de Cabel se contraíram e ele quase recuou, ameaçando erguer a barreira mística novamente. No entanto, ele se forçou a parar. Ele olhou profundamente nos olhos vermelhos de seu mestre. Através da evolução de sua própria mana de purificação, que agora flutuava ao redor de seu corpo como uma extensão de seus sentidos, Cabel pôde sentir a verdade absoluta nas palavras, na alma e nos gestos de Lucas. Não havia malícia, não havia a escuridão que habitava Dice; era apenas o seu mestre, o homem que, apesar de rabugento, sempre foi o protetor de todos eles.

Relaxando os ombros de forma gradual, Cabel soltou um suspiro trêmulo e desarmou completamente sua postura defensiva.

"Tudo bem..." Murmurou Cabel, forçando um sorriso cansado. "Eu confio em você, Lucas. Pegue-o. Acho que ele também quer ver você."

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