Play with fire

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O amanhecer entrou de mansinho pelas frestas das cortinas pesadas, banhando o quarto real em tons de dourado e azul-escuro. Cabel abriu os olhos lentamente, sentindo o peso esmagador de uma noite praticamente em claro. Seus cabelos castanhos eram um ninho de passarinho desordenado, e as olheiras profundas em seu rosto denunciavam o esgotamento físico e mental de quem passou horas vigiando o sopro de vida de três recém-nascidos.

Só então, ao tentar esticar os braços, ele se deu conta de onde estava: na enorme e luxuosa cama de Athanasia.

Eles pareciam ter desabado ali por puro instinto de sobrevivência. Na ponta esquerda, a princesa dormia um sono pesado de exaustão; na ponta direita, Cabel mal conseguia se mexer. No meio, dispostos como pequenos tesouros frágeis, repousavam Lucius, Eric e Leonel. Os bebês dormiam calmamente, alheios ao estresse e ao cansaço monumental de seus protetores.

Para piorar sua mobilidade, Ijekiel dormia abraçado de conchinha consigo, os braços do albino envolvendo sua cintura como um nó firme e possessivo. Cabel soltou um sorriso bobo, misturado a um forte rubor de vergonha.

Parecemos uma família completamente louca tentando carregar o mundo nas costas. - Pensou, sentindo o peito aquecer.

Por um segundo, ele desejou que o tempo parasse ali. Que a provável guerra, a magia instável e as linhagens dos Herdeiros de Sangue não existissem. Mas, ao olhar para o espaço vazio ao lado de Athanasia, a realidade bateu: faltava uma peça fundamental naquele quebra-cabeça. Faltava Lucas.

Athanasia ressonava ruidosamente, com a expressão contraída mesmo no sono, os dedos rigidamente agarrados à pontinha da manta que envolvia Lucius. Cabel sentiu um aperto doloroso no coração ao observá-la.

A princesa não estava apenas cuidando daquele bebê; ela havia desenvolvido uma dependência emocional profunda, quase desesperada, por Lucius. Sem Lucas ali, aquele menininho era sua âncora, a personificação viva do amor que sentia e o único pedaço palpável que restara de seu amado. Para Athanasia, perder Lucius significaria enlouquecer; seria admitir que Lucas também havia partido de sua vida para sempre.

Cabel esticou o olhar para o bebê de perfil. Os olhinhos fechados, os cílios longos e, principalmente, a charmosa pintinha do lado esquerdo da bochecha... Era impossível olhar para Lucius e não enxergar a cópia fiel de Lucas.

De repente, o vislumbre terno foi interrompido. A pedra de contenção no colar do bebê começou a pulsar em um tom âmbar perigoso.

Mesmo ali, a poucos centímetros de Eric - cuja presença costumava equilibrar a temperatura mágica -, a energia de Lucius dava sinais de um novo e violento descontrole. Cabel engoliu em seco. Ele sabia que Athanasia jamais permitiria que Lucius fosse levado para Sycansia sem ela. Mas Claude também nunca deixaria a filha cruzar o portal naquele estado. A engrenagem política e paternal de Obelia iria travar o plano.

Se Lucius devesse ser salvo por Lucas, Cabel precisava agir pelas costas da melhor amiga. E precisava ser agora.

Com movimentos milimetricamente calculados, Cabel desatou-se dos braços de Ijekiel. Cada músculo de seu corpo clamava por cuidado para não fazer a cama ranger. Ele se inclinou e deixou um beijo terno na testa de Eric, sorrindo derretido ao ver o filho se espreguiçar de forma manhosa. Em seguida, afagou os fios vermelhos de Leonel, que sequer se mexeu.

Por fim, esticou as mãos em direção a Lucius, que estava mais próximo de Athanasia. No milésimo de segundo em que ergueu o bebê, a respiração da princesa falhou por um instante, fazendo o coração de Cabel disparar, mas ela continuou dormindo.

Ao se virar, ele deu de cara com Ijekiel sentado na cama, os olhos dourados bem abertos. O platinado abriu a boca para protestar, o olhar severo implorando para que não cometesse aquela loucura. Cabel apenas balançou a cabeça negativamente e levou o indicador aos lábios, apontando em seguida para o sofá.

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