CAIXA MISTERIOSA

22 2 22
                                        

TW: Decapitação

Na trilha ancestral que levava à majestosa, isolada e mística Colina Sagrada, o ambiente parecia pertencer a um plano de existência completamente diferente. O ar ali estava impregnado com o cheiro rústico de carvalho antigo, orvalho fresco e uma energia divina e elemental tão densa que fazia a pele arrepiar instintivamente ao menor contato.

Ijekiel Alpheus encontrava-se de pé junto à grande rocha musgosa que demarcava o início exato da barreira mística protetora do santuário. Em seus braços, ele segurava com extrema ternura, devoção e um instinto protetor feroz o pequeno Eric. O bebê mantinha-se confortavelmente aconchegado em uma manta grossa de algodão puro, com seus cílios albinos brilhando levemente sob a luz filtrada pelas copas das árvores e seus magníficos olhos heterocromáticos fixos na folhagem ao redor. O albino mantinha uma postura perfeitamente vigilante, os olhos dourados varrendo o perímetro da floresta enquanto aguardava pacientemente a chegada de algum enviado ou mensageiro oficial de Sycansia que estivesse encarregado de trazer o pequeno Lucius.

De repente, o silêncio idílico do bosque foi quebrado por um som agudo, elétrico e sibilante que fez o próprio espaço físico se contrair violentamente. Um portal mágico, brilhando em tons majestosos de roxo escuro, dourado imperial e vermelho carmesim, rasgou o tecido da realidade a poucos metros de distância de Ijekiel. O deslocamento de ar resultante foi tão intenso e abrupto que levantou as folhas secas do chão em um turbilhão circular perfeito, fazendo as vestes de Ijekiel esvoaçarem.

Para a surpresa absoluta, total e avassaladora de Ijekiel, quem cruzou o limiar brilhante do portal não foi um mensageiro, um guarda imperial ou um lorde de Sycansia. Foi o próprio Lucas.

Ijekiel congelou imediatamente no lugar, os olhos dourados arregalando-se em puro choque. A figura que emergiu com imponência do portal mágico era quase irreconhecível se comparada ao mago insolente com quem ele costumava rivalizar e trocar farpas em Obelia no passado. Lucas portava-se agora com uma imponência esmagadora, uma altivez real que parecia emanar de seus poros.

Ele vestia os trajes reais oficiais de gala de Sycansia — um terno de corte impecável e sob medida na cor carmesim mais profundo, adornado com insígnias imperiais de ouro pesado no peito e uma capa longa e majestosa que parecia absorver a luz ao redor como um buraco negro. Seus longos cabelos negros estavam perfeitamente alinhados com tranças verticais, e seus olhos carmesim cintilavam com uma soberania, uma frieza e um poder bruto que faziam o próprio ar ao seu redor vibrar de forma quase reverente. Em seu peito, aninhado com uma segurança que desafiava qualquer perigo, ele sustentava com firmeza o pequeno Lucius.

Diante daquela visão avassaladora e movido por toda a sua rigorosa, impecável e quase mecânica educação aristocrática sobre as hierarquias, etiquetas e as linhagens de sangue dos grandes impérios mundiais, o corpo de Ijekiel reagiu de forma puramente instintiva. Ele começou a inclinar o tronco estruturado para frente, flexionando a coluna e preparando-se para executar uma reverência formal, pomposa e profunda diante daquele que agora sabia ser, de fato, por direito de sangue e reconhecimento público, um legítimo Príncipe de Sangue Imperial.

Ao notar o movimento formal, rígido e aristocrático do antigo rival de Obelia, Lucas interrompeu os passos firmes e soltou uma gargalhada alta, estrondosa, ecoante e genuinamente arrogante, cujo som reverberou por entre as árvores antigas da colina sagrada.

"Mas que diabos você pensa que está fazendo, Ijekiel?!" Lucas exclamou entre risos zombeteiros, balançando a cabeça negativamente e aproximando-se com passos largos, despojados e sem qualquer cerimônia, quebrando instantaneamente toda aquela atmosfera pesada de formalidade palaciana. "Guarde esse seu teatro nojento, essa sua postura dura de nobre engomado e essas reverências cafonas para os velhos caquéticos e gábulos do conselho imperial! Não ouse se curvar diante de mim, ou eu juro pelos deuses que transformo essa sua capa branca e bonita em trapos de chão aqui mesmo, com um único feitiço. Nós dois sabemos muito bem que eu continuo sendo o mesmo mago que adora ver você perder a paciência e a compostura."

Find YouHistórias para pegar e não largar. Descubra agora