As primeiras horas da manhã sobre o Império de Obelia não trouxeram a habitual e dourada promessa de renovação ou esperança para os habitantes do palácio imperial. Para Athanasia, a luz da manhã que filtrava com uma insistência quase agressiva pelas pesadas cortinas de seda de seus aposentos parecia uma afronta direta à sua dor; uma intrusa violenta, barulhenta e indesejada em um espaço privado que, até a noite anterior, ela considerava seu santuário sagrado e inviolável.
A princesa não havia dormido por um único minuto sequer. Passou as últimas longas, silenciosas e torturantes horas sentada diretamente no chão de mármore, sobre o tapete de pelagem clara, com os joelhos encolhidos firmemente contra o peito e os braços envolvendo as pernas em uma tentativa desesperada de conter os tremores de seu próprio corpo. Seus olhos safira, outrora cheios de uma vivacidade mágica indomável, estavam fixos no vazio do quarto, perdidos em um labirinto de pensamentos autodestrutivos. Seus lábios ainda pareciam dormentes, inchados e avermelhados — não pelo calor reconfortante de um reencontro há muito esperado, mas pela crueza brutal, fria e asquerosa de uma profanação nojenta.
Ela se sentia profundamente em luto. Não um luto comum e protocolar pela morte física de alguém de seu convívio, mas sim pela perda dolorosa, invisível e silenciosa de si mesma. Pela morte trágica de sua própria pureza e da inocência com que encarava o mundo e o seu relacionamento.
A sensação esmagadora de que havia, de alguma forma terrivelmente distorcida, injusta, sacrílega e cruel, traído a confiança absoluta de Lucas pesava em seu peito como uma bigorna de ferro fundido, sufocando seus pulmões a cada tentativa de respirar profundamente. A lógica fria de sua mente tentava desesperadamente argumentar em sua própria defesa, sussurrando em seus pensamentos que ela foi cruelmente enganada por um artefato maldito, que seus sentidos mágicos vitais estavam completamente bloqueados e camuflados pelo anel de contenção e que a silhueta esguia, os cabelos longos e negros e os olhos carmesim do impostor eram uma cópia milimetricamente perfeita, física e espiritual, do homem que ela tanto amava.
No entanto, o coração ferido, violado e sangrento de Athanasia simplesmente não operava sob as leis frias da lógica humana ou das justificativas técnicas. Para ela, a verdade nua, crua, dilacerante e humilhante era uma só: ela havia corrido, com um sorriso no rosto e o coração disparado de felicidade, de livre e espontânea vontade para os braços de um monstro corrompido. Ela o havia abraçado com um desespero cego e infantil. Ela permitiu, de forma dolorosamente ingênua, que aqueles lábios invasivos, gélidos, secos e pecaminosos tocassem os seus, completamente nublada por uma carência afetiva e uma saudade devastadora que a cegaram para os sinais mais óbvios de perigo.
Fechando os olhos com força, uma nova onda de horror a atingiu quando sua memória a forçou a reviver o momento exato em que a farsa desmoronou de forma fantasmagórica. Horas antes, quando ela tentou desesperadamente se agarrar à sanidade, sua mente captou uma pulsação na ponte telepática. Por um milésimo de segundo, seu coração saltou ao ouvir a assinatura vocal exata de Lucas ecoar em seu córtex — aquele tom firme e profundo que sempre a acalmava.
Contudo, a ilusão durou apenas um lampejo. As palavras que cruzaram o canal não carregavam o calor ou o carinho de seu amado; eram frases eivadas de um sadismo puro, doentio, cortante e assassino. Era a voz de Lucas, mas manipulada pela projeção mental daquele monstro de Arlanta, que zombava de sua fragilidade e se deliciava com o nojo que plantou em seu corpo. A convicção de que aquela presença asquerosa estava tentando usar a própria ligação mística do casal para se infiltrar e corromper seus pensamentos de dentro para fora fez Athanasia tomar uma decisão drástica, desesperada e violenta: utilizando o restante de suas forças emocionais, ela ergueu uma barreira de isolamento absoluto em sua própria mente, trancando seu subconsciente e bloqueando qualquer essência ou tentativa de contato que carregasse a assinatura de Lucas. Ela preferia caminhar no silêncio e na solidão mais absolutos a se deixar confundir e violar pelo monstro mais uma vez. Não queria cometer mais nenhum erro técnico. Não queria machucar o verdadeiro Lucas mais do que sabia que ele já deveria estar machucado se ele tivesse descoberto o sacrilégio que aconteceu na varanda.
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Fiksi Penggemar"De olhos fechados, o que consegue ver, Athy? (...) Se for a escuridão, saiba que essa é a minha vida sem você. E a beleza que vê agora... (...) É como está começando a ser minha vida ao seu lado." "Está vendo as estrelas, Lucas? (...)Quando olhar o...
