Confie em mim...

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O cenário na arena do Festival era o reflexo do próprio inferno. O ar, saturado pelo cheiro acre de ozônio e sangue, vibrava com os gritos dos sobreviventes e o estalar dos escombros ainda incandescentes. As estruturas de mármore e os jardins suspensos que decoravam os camarotes imperiais haviam derretido sob o calor de uma magia incompreensível. Corpos carbonizados, retorcidos em posições de puro desespero, jaziam espalhados pelo chão de pedra fundida.

O Imperador Hades voava a velocidades absurdas, suas asas demoníacas cortando o vento com violência. Ao perceber o setor de Obelia destruído, o pânico tomou conta de seu peito imponente. Ele desceu como um raio em direção aos escombros, procurando por Melissa Alpheus.

Ele a encontrou parcialmente soterrada por uma pilastra. No mesmo instante, Cabel Ernest materializou-se ali através de um teleporte de curto alcance, ofegante e com a pele coberta de fuligem.

Cabel ajoelhou-se rapidamente ao lado de sua mãe de criação, verificando os sinais vitais com magia de diagnóstico.

"Ela está bem, Majestade!" Cabel informou, limpando o suor da testa. "Apenas inconsciente devido ao impacto e à exaustão mágica."

Antes que Hades pudesse suspirar aliviado, ambos escutaram um rugido vindo na direção do camarote destruído de Huale. Eros, em sua forma dracônica, lutava contra as criaturas de necromancia para salvar sua família. 

"Ernest, precisamos evacuar essa arena... Imediatamente!" Hades orientou, olhando para o céu e vendo  Lucas indo em direção a Luke. Ele sabia que uma catástrofe maior do que os ataques de monstros estava por vir com a aproximação daqueles dois.  "Leve Melissa para os curandeiros e retire Obelia daqui imediatamente. Eu irei ajudar a evacuação de Huale."

Cabel entendeu imediatamente o comando de Hades e segurou Melissa nos braços, levando-a em seu colo num teleporte até os curandeiros que estavam cuidando dos feridos de Obelia. 

No epicentro daquela destruição na ala obeliana, Athanasia ajoelhava-se sobre as pedras fraturadas, suas mãos trêmulas cobertas de fuligem e do sangue escarlate que jorrava dos ferimentos de seu pai e de Félix. Ela tentava desesperadamente fazer ambos abrirem os olhos; e desesperadamente clamar para Lucas não ir para longe dela.

Cabel surgiu logo atrás dela, após deixar Melissa a salvo. Seus olhos marejados refletiam a gravidade da situação. Ele não hesitou. Canalizando sua mana nas mãos para evitar que mais pedras desabassem, ele se aproximou da pilha de granito e ferro retorcido.

Félix havia servido como um escudo humano absoluto; seu corpo robusto e ensanguentado estava estendido diretamente sobre Claude, tendo absorvido o impacto esmagador da explosão para poupar a vida de seu soberano.

"Athy, você precisa me ajudar." Cabel pediu ao tentar trazer a sanidade da amiga de volta para que ela não prestasse atenção na arena; sua voz falhando pelo cansaço, enquanto agarrava as ombreiras da armadura despedaçada de Félix para tentar erguê-lo. "Preciso tirar Félix de cima do Claude para que os curandeiros possam agir... Mas para isso vou precisar que estanque o ferimento do seu pai. No três, okey?"

Trêmula, Athanasia moveu a cabeça em afirmativo, pronta para ajudar Cabel no que fosse preciso.

No entanto, no milésimo de segundo em que Cabel aplicou força para mover o corpo do padrasto, um som sufocado cortou o ar.

Claude abriu abruptamente os olhos. Mas não havia a costumeira frieza glacial naquelas safiras de jóia; o que restava ali era o mais puro, primitivo e dilacerante terror. O monarca, que nunca demonstrou uma fraqueza sequer diante de seu império, sentou-se com rapidez e agarrou Félix desesperadamente, puxando o corpo inconsciente do amigo contra o próprio peito. Lágrimas pesadas começaram a queimar a pele suja de Claude, misturando-se ao sangue coletivo.

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