38 Capítulo - Surpresa.

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Seu número estava no identificador de chamadas. O toque da sua ligação ainda era aquela mesma música, que me deixa de agonia só de ouvir os primeiros acordes, mas agora ela não fazia sentido nenhuma. A música já não me incomodava tanto, antes era um pretexto para eu lhe atender rapidamente e pela primeira vez a música estava fazendo sentido, está tudo obscuro dentro de mim. Aqui tudo parece ter deixando fora do lugar, depois da última tempestade, perdi tudo incluindo toda a alegria e a vontade de amar que existia em mim. Ficou um coração em fim de guerra, um terreno devastado pela falta de alguém.

— Não desiste de mim. — Pensei ao desligar mais uma chamada dele.

Uma coisa eu não poderia negar, o quanto o Felipe é persistente. No fundo o único pedaço que restou do meu coração enchia de alegria, mas agora não era o momento para pensar nele, o deixei em segundo plano. O fato é que eu tinha que guardar combustível para o que eu ia enfrentar nos próximos dias/meses: Ação judicial, isso eu sabia que não seria nada fácil. Eu estava esperando o advogado que iria me ajudar com o caso da minha filha, a minha ansiedade era tanta que eu roía todas as minhas unhas.

— Você mesmo se sacrifica. — Disse a Juva encarando o meu celular. — Estou com desejo.. — Ela pensou e eu lhe encarei. — Maionese com biscoito de polvilho. — Seus olhos brilharam e ela passou sua língua em volta dos seus lábios se deliciando e eu respondi fazendo uma expressão de nojo. — Eu necessito, tenho que comer.

Seus olhos suplicaram ao se encontrar com o meu e eu balancei a minha cabeça negativamente. Ela era a prova viva de uma felicidade que eu não tive, seus olhos brilhavam até com um desejo incomum, como se isso fosse à coisa mais importante da sua vida nesse exato momento, matar a sua vontade. Lembro-me que quanto eu estive gravida só tive um desejo — Me livrar da gravidez — e agora me arrependi por não ter aproveitado os momentos mágicos e singular de uma gestação.

— Para a sua sorte tem tudo isso no armário.

Ela sorriu mostrando os seus dentes e saiu da sala sem me responder. Me acomodei no sofá e fiquei admirando o quadro da autoria do Luiz, pela primeira vez depois de dois dias eu sorrir, era o quadro que eu tinha ganho do Felipe, de um cão e um gato em uma cumplicidade de da inveja a qualquer amizade. Era algo tão simbólico, um simples retrato, mas só eu sabia o valor que nele tinha, foi com ele que tudo começou.

— Incrível o poder que o Luiz tem de capturar algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão significativo. — A Juva falou toda orgulhosa do seu namorado.

— Verdade. — Assenti. — Esse quadro é incrível.

Ela se sentou no chão, abrindo o saco de biscoito misturando na maionese e logo saciando o seu desejo. Era uma cena engraçada de se vê, ela se deliciava como se estivesse comendo uma picanha malpassada.

— Você quer? — Ela me perguntou levando o biscoito a boca. — Está uma delicia.

Mal deu para lhe entender, ela falava enquanto mastigava.

— Não. — Fiz cara de nojo, meu estomago embrulhou só de pensar em comer isso.

Olhei a hora no meu celular e fiquei apreensiva. O advogado já estava vinte minutos atrasado e como sofro por antecipação minhas mãos já estavam soando sem parar.

— Tem certeza que você passou o endereço certo ao advogado? — Perguntei a Juva e ela assentiu.

— Acontece de se atrasar. — Ela me respondeu tranquilamente. — E digamos que não é nada fácil achar a sua casa, isso se resolve no escritório, num restaurante ele deve ter outros compromissos por isso está atrasado.

Chora MeninaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora