*Agora*
Abro os olhos, onde estou? Me levanto devagar, minha cabeça gira, parece que estive dormindo há séculos. Demoro para perceber que estou em meu quarto, olho meus pulsos, não sabia que dava para levar pontos aqui, pontos horrorosos por sinal. Era para eu estar morta, o que aconteceu de errado?
Desço as escadas em busca de alguém que nem sei. Quem me socorreu? Me levou para o hospital? Há quanto tempo estou dormindo? Sem sonhos? Nada de pesadelos?
- Matt? - O chamo esperando ouvir sua voz de volta.
Alguém me salvou, mas quem?
- Olá?
Mais uma tentativa frustrada. Está escuro, não posso dormir. Vou dar uma volta. Subo rapidamente e coloco uma roupa limpa. Um shorts jeans, tênis e uma regata preta. Desço e vou para a rua.
Ao abrir a porta não há nada, vejo apenas a escuridão. Fogo, fumaça. O que aconteceu aqui? Caminho lentamente pela rua, as casas parecem ter sido incendiadas há pouco tempo, o fogo ainda está vivo e queimando, mas sem tanta intensidade. Olho para minha casa, está intacta, mas sombria, sombria de um jeito que nunca vi, como se fosse uma casa mal-assombrada, não há luz, nem vida nela. Estou com medo. Não existe uma casa sequer com vida aqui. Corro o mais rápido que consigo, sei para onde quero ir, mas tudo muda de repente, droga, isso não é hora da minha cabeçar sofrer uma pane. Olho ao meu redor, eu estou... New York City?
- Sangue e morte atrás de você... Sangue e morte atrás de você... - Ouço o sussurro e vejo a garota zumbi, como na primeira visão, batendo a testa na parede repetidas vezes, não vou me aproximar. Foi assim que ele me cortou.
Me afasto, mas alguém chega perto dela, sou eu, parece uma retrospectiva. Ela agarra a outra Ana e vejo tudo do outro lado da rua. Ela a corta, não espera... Eu me corto e Matt... Matt?
- Matt! - Grito e atravesso a rua correndo.
Estou entre os dois agora, mas de repente eu sumi, ou melhor, a outra versão de mim e Matt me encara, mas não me vê, olha através de mim para o nada.
- Ei Matt? - Toco em seu rosto, ele permanece paralisado, congelado feito estátua - Sou eu, Ana, você precisa me enxergar, por favor! - Imploro entre lágrimas. - Matt! - Grito e ele finalmente levanta seu olhar em direção ao meu.
Olhos azuis... A imensidão azul... Matt está aqui. O que há de errado com ele? Ele sorri entre dentes, lábios semicerrados. Me afasto, não é o meu Matt, parece a marionete dele. O que houve? Tudo parece estar fora de lugar. Seus olhos sangram e ao piscar meus olhos, estou na rua da lanchonete, onde eu queria estar anteriormente, mas ela também está em chamas, o que é isso? O inferno?
Estou só, no meio do nada, entre casas e lanchonetes em chamas. Só queria estar em paz. Apaguei por um tempo e agora parece que estou no inferno. Talvez seja isso. Minha morte. Eu morri e estou no inferno. Suicidas não têm perdão. Deve ser o meu inferno particular. Eu cometi o maior erro da minha vida.
Ouço um som estranho. Um vulto caminha do final da rua vindo em minha direção. Entre fumaça, fogo e escuridão demoro para identificá-lo. O medo toma conta de mim ao enxergá-lo com mais clareza. Ele tem uma perna quebrada, a arrasta pelo chão, seu ombro parece quebrado também e o faz andar meio corcunda e pendendo para um lado. Seu braço bom carrega grilhões que se arrastam pelo chão causando uma tortura aos ouvidos. Ele se aproxima e vou recuando. Ao ser iluminado pelo fogo, não há um rosto e sim um saco que o encobre, um saco de pano bege e alvejado, sujo, manchado com o que parece ser sangue. Não sei como, mas ele parece me enxergar mesmo assim e vem se arrastando e me torturando psicologicamente.
Começo a correr, mas ele não, continua vindo incansavelmente, sem pressa e ainda assim é como se estivesse me alcançando. Quanto mais eu corro, mais ele parece se aproximar, é como se eu estivesse correndo sem sair do lugar, como se o chão fosse uma enorme esteira de academia. Olho para trás, ele está muito perto, é sangue no saco que cobre sua cabeça. Como será seu rosto? O que ele fará comigo?
Minha casa parece próxima e tão distante ao mesmo tempo. Ela se aproxima como se estivesse vindo até mim e eu corro em uma lentidão terrível. Olho para trás, ele está a poucos metros agora, o pânico toma conta de meu corpo. O vejo arremessar a corrente, seus grilhões, um deles prende em meu pulso automaticamente e sou puxada para trás, indo ao chão. Mas o chão se dissolve e eu caio do teto de casa direto na cama, como se eu tivesse me teletransportado e desmaterializado, tudo de uma vez. O chão é o teto e o teto é o chão. Estou confusa. Ao cair na cama estou atada pelas mãos e pés, presos pelos grilhões em cada extremidade da cama impossibilitando meus movimentos por menor que sejam. Tento puxar um braço e sinto muita dor, não há como me mexer.
Ouço o som que agora parece conhecido, ele surge do fundo do quarto e de frente para mim em seu saco alvejado e sangrento. Eu achei que teria paz ao me matar e agora, percebo que a morte pode ser ainda pior, não há como me salvar, é um castigo eterno, serei torturada até depois do fim. O que eu fiz?
Ele solta uma gargalhada que é abafada pelo saco em sua cabeça. Vem pelo lado direto da cama, se arrastando com seus ossos quebrados. Antes eu podia acordar, mas agora estou no inferno, não há como escapar disso agora. Ele levanta seu braço quebrado, - não sei como - me estende sua mão, seus dedos estão tortos, como se tivessem sido quebrados um por um e ao esticá-los para tocar meu rosto ouço os estalos dos ossos fora do lugar. Ele me toca e viro meu rosto, estou indefesa. Depois tira sua máscara e é como se eu fosse morrer de novo com o pânico que sinto.
- Olá Ana, contente em me ver?
- Trevor Bayne? - Gaguejo.
- Não devia ter feito aquilo Ana, agora teremos muito tempo para nos divertir. - Ele desliza um dedo pelas minhas pernas nuas - Você é toda minha sua vadia!
E em um passe de mágica - ou de treva - ele estende o que parece um facão e rasga a minha pele da minha virilha até o centro entre meus seios e grito de dor sentindo minhas cordas vocais falharem. E eu que pensei que meu castigo em vida era o pior. Estou no inferno e não há mais volta.
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DARKNESS - Livro I
Mystery / ThrillerNão reclame da sua vida, perto desta, ela parecerá o céu.. Será possível fugir da escuridão? "Todos temos trevas em nós". Copyright Lylah Hartzler Carrillo, 2017 © All rights reserved
