SEM SAÍDA

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Tenho sangue nos joelhos, braços e mãos. Ela foi removida para a emergência, seu nome era Claire Sutta, era ou é, não sei se vai sobreviver. A culpa me consome, por onde passo levo trevas e destruição pelo visto. Eu a perturbei, embora uma parte de mim diga que ele apenas a usou para me mandar um recado. Um homem que sacrifica uma vida dessa forma, apenas para ferir outro alguém, deve ser a pessoa mais amaldiçoada de todas. Para ele a vida é descartável, nada importante.

Ainda estou aqui, de joelhos, no palco, sozinha, as luzes em mim, pareço a protagonista de um conto de terror deprimente. Estou imóvel, sem ação, não sei o que fazer agora, não sei como me olharão lá fora, quero me esconder, me enfiar debaixo da terra e hibernar, mas nem isso posso, hibernar seria prolongar toda essa tormenta.

Ouço um barulho, algo como um objeto rolando no chão, olho em direção à entrada por onde passei anteriormente, vejo uma silhueta me observando, encaro-a, não sei quem é, talvez uma enfermeira ou outro funcionário do hospital.

- Ana... 

Ela sussurra meu nome e no mesmo instante, antes mesmo das luzes iluminá-la, já sem quem é. Trata-se dela, a garota zumbi, se aproximando de mim em uma lentidão torturante, em um vestido simples, curto e rodado, branco. Sua pele é acinzentada, olhos fundos como se não dormisse há dias, seu cabelo está sem vida, mas ainda está bonita e ainda se parece comigo. 

Permaneço imóvel e ela chega até mim, me estende a sua mão e ao tocá-la tudo se transforma. Estamos próximas ao Oneida Lake, mãos dadas, assim como foi com a Andy, avisto uma garota no coreto, é ela, só que reluzente, radiante, a pele rosada, com a mesma roupa e ainda assim, cheia de vida. Caminha de um lado para o outro muito irritada.

- Por que tão irritada linda garota?

Ele aparece atrás de nós, o assassino. Ela o encara com atenção, parece desconfiada.

- E por que eu diria algo à você? Não te conheço. - Responde ríspida, ela é bem temperamental.

- Onde estão meus modos? - Ele estende a mão para ela - Sou Trevor Bayne, me mudei há pouco tempo, só quero conhecer a vizinhança.

- Seja bem vindo Trevor - Ela segura sua mão - Não vou dizer meu nome, vai que você é um psicopata - Garota esperta, até mais do que eu.

- Certo, posso? - Ele aponta para o para-peito do coreto.

- À vontade.

Ele se encosta admirando a paisagem, ele é tão charmoso e ela se coloca ao seu lado, mas mantendo distância.

- Você vem sempre aqui garota sem nome? - Ele pergunta, a voz sombria, mas atraente, ele sabe jogar.

- Só quando preciso pensar, principalmente sobre a merda que é a minha vida. - Que garota!

- Seus pais não te ensinaram bons modos mocinha? - Ele finge indignação, mas não engana, não a mim.

- Danem-se meus pais! - Ela esbraveja - Não fazem mais diferença na minha vida.

- Olha! - Ele sorri - Sabe que se eu recebesse um dólar por cada adolescente que reclama de seus pais, eu estaria rico.

- Você não entende, é tão velho quanto eles.

- E por que está com eles então? Parece tão independente, poderia fazer o que quisesse.

- Talvez, mas não sem dinheiro.

- Seus pais não tem algum fundo de investimento? Sei lá, seu dinheiro para a universidade, herança...

- Até que sim - Ela coça o queixo suavemente - Eles têm uma boa grana guardada, eu bem que poderia pegar uma parte dela e ir conhecer o mundo, dane-se a universidade.

- Está certa - Ele sorri satisfeito - Danem-se o pais - Diz abrindo os braços como se expulsasse todos à sua volta - Eles não entendem a complexidade da vida adolescente. - Ele se aproxima dela, mas ela não recua - Eu me livrei dos meus assim que pude - E lhe dá uma piscada sutil.

- Como assim? Poderia se livrar deles? Tipo um cruzeiro para o Japão com passagem só de ida?

- Claro - Ele solta uma gargalhada maléfica - O que você quiser. Posso arrumar uma viagem para eles, convenço-os de que você precisa estudar fora e os faço depositarem um bom valor para você, o que acha?

- Fechado - Ela lhe estende a mão, não!

- Gostei de você, você sabe o que quer, vamos nos ajudar mutuamente, o que acha? - Ele é macabro.

Ela sorri animadíssima. Mal sabe que está entregando a sua vida e a de seus pais a um monstro que vai matá-los sem piedade. Ele sorri e olha para mim.

- Ainda quer procurá-lo Ana? - Meu coração dispara - Quem procura acha! - Sua voz muda, a garota zumbi desaparece e estamos sós, mas apenas eu sinto medo aqui - Eu vou destruir você sua vadia do inferno!

E antes que ele avance sobre mim, abro os olhos e estou em posição de defesa, ainda no chão do auditório. Olho ao meu redor, estou sozinha e ofegante. Me levanto rapidamente, meu jeans sujo de sangue nos joelhos, saio e caminho pelo corredor do hospital sob olhares desconfiados. Não me lembro de o corredor ser tão longo. Finalmente chego ao estacionamento. Entro no carro e saio dali, quero ficar o mais distante possível desse lugar. Dirijo, tenho que ir à casa de Matt, voltar ao início. Ouço um estalo e checo o retrovisor, dou de cara com o reflexo da velha amaldiçoada e no susto, viro o volante fazendo o carro sair da estrada e começar a derrapar. Tento manter a direção firme, mas ele desalinha, me fazendo entrar mata adentro, deslizando por um barranco, o desespero tomando conta de mim, até que o carro bate em uma árvore e meto a cara no volante com força. Toco minha testa, mais um corte para a coleção. Tiro o cinto e saio do carro dolorida, tenho que acionar o seguro, mas não tenho telefone. Devo voltar a estrada e pedir ajuda.

Caminho barranco acima, está escuro demais. Ouço sons, estalos, bichos, galhos quebrando sob meus pés. Segura a tua onda Ana! E de repente ouço um gemido baixo, paro de andar para escutá-lo melhor, olho em direção às árvores da minha esquerda, tem um corpo que parece agonizar ali. Corro até lá, é uma senhora, bela, sinto como se a conhecesse, ao seu lado vejo o corpo de um homem, mas parece sem vida.

- Calma, vai ficar tudo bem, eu vou pedir ajuda. - Digo tentando acalmá-la, sua garganta sangra e ela não consegue falar.

Olho para cima, a estrada está perto, ouço um som que mais parece carne se desgrudando e então mil vozes infernais:

- Você precisa de ajuda sua vadia!

E ao olhar para a senhora, não é mais ela, é a velha e ela avança sobre mim não me dando escapatória.

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