- Olha quem apareceu! - O Sr. Luke me abre um largo sorriso, ele parece assustador como sempre, mas ainda assim, é um homem doce.
- Como vai Sr. Luke? - Me sento apoiando os cotovelos sobre o balcão e jogando minha mochila no chão.
- Eu estou ótimo, me sinto mais jovem a cada dia - Ele solta o livro que está lendo, estufa o peito inspirando o ar não tão puro da lanchonete e acaba tossindo um pouco, o que me faz cair na gargalhada.
- Fico feliz por isso. - Dou uma pausa olhando o livro aberto sobre a mesa - O de sempre por favor.
- É pra já! - Ele bate na copa - Um Shake de morango especial!
"Mais jovem a cada dia", reflito. Normalmente quando pessoas idosas dizem isso, já estão para morrer, minha mãe chama isso de "Melhora da Morte". Bem, está certo que ela diz isso para pessoas que estão internadas, nas últimas e que melhoram do nada, não é o caso do Sr. Luke, estou exagerando, mas me coloco a pensar, ele é um bom amigo, nunca pensei em ser amiga de um senhor de idade, embora eu nem saiba a idade dele. Aliás, o que eu sei sobre ele afinal?
- Hum... Sr. Luke? - Digo meio aflita.
- Sim? - Ele se vira para mim, já com meu Shake em mãos.
- Obrigada - Seguro o copo com vontade, dou um gole rápido e recomeço - Somos amigos, certo?
- Com certeza mocinha. - Sua voz é tão grave e forte, confio nele.
- Bom, me fale do senhor. Acho que não te conheço o bastante e devemos conhecer nossos amigos. Que tipo de amiga eu sou se não sei nada sobre meu amigo? - Espero que isso o convença a se abrir.
- Bom - Ele fecha o livro, coloca-o de lado no balcão e começa a passar o pano distraído e olhando à esmo - O que quer saber?
- Ahnn... De onde o senhor é? Fazia outra coisa antes? Não sei, qualquer coisa, o senhor sabe tanto sobre mim.
- Entendo... - Ele me olha e sorri, um sorriso doce e inquietante - Eu sou daqui mesmo, vivi minha vida toda nesse lugar. Mas nem sempre fui vendedor de Shake minha querida mocinha. - Ele diz como se tentasse tirar a ideia de vendedor de Shake da minha mente. - Eu tive uma vida boa... - Diz olhando para o teto como se visualizasse o céu - Sim, eu tive.
- Mas?... - Sei que há um porém pelo seu tom de voz.
- Mas a vida é assim. Difícil. - E como é! - Eu tive uma esposa e uma filha. - Isso é uma grande revelação! - Minha esposa nos deixou para viver uma outra vida.
- Ela morreu? - Pergunto subitamente.
- Não - Ele sorri sem jeito - Ela decidiu que a vida ao lado do marido e filha não era boa o suficiente para ela. - Ele volta a passar o pano no balcão - Então ela foi embora com um empresário e nos abandonou.
- Eu sinto muito Sr. Luke. - Toco sua mão gelada.
- Tudo bem - Ele recua - Já se passou muito tempo, superei isso. Não superei outras coisas.
- Que coisas por exemplo? - Ele me encara e para de limpar o balcão, espero não ter ido longe demais em minha curiosidade.
- Minha filha... - Ele suspira - Ela se chamava Sophia.
- Chamava? - Estou intrigada.
- Ela também se foi, mas de um jeito bem pior. - Prefiro não perguntar, mas ele entende meu olhar. - Ela se matou.
- Ah meu Deus! - Meus olhos se enchem de lágrimas. - Eu sinto muito, de verdade. Se não quiser falar sobre isso...
- Não, tudo bem, somos amigos, certo? - Ele me fita e faço que sim com a cabeça.
- O que houve? - Pergunto, ainda em choque.
- Ela tinha mais ou menos a sua idade sabe? - Ele olha além de mim, parece enxergar o passado. - Já fazem muitos anos, ela estudou no mesmo colégio que você. - Ele sorri, mas está triste. - Era uma boa menina, inocente, e eles tiraram isso dela.
- Eles? - Estou confusa.
- Sim, meninos malvados. - Ahnn? - Sophia foi violentada por dois garotos do colégio, eles nunca pagaram por isso, se tornaram adultos, pais de família, um deles se mudou e o outro ainda vive aqui. - Seus olhos escurecem - Fingem que nada aconteceu. Eles tinham pais bem estruturados financeiramente. Fui à polícia, ninguém foi preso e acabei perdendo meu emprego, eu era escritor sabe? Em um jornal local, mas eles conseguiram me tirar da redação. Abafar o caso.
- Quem são eles Sr. Luke? Eu posso fazer algo?
- Não minha querida - Ele sorri tentando afastar as más lembranças e talvez as ideias malucas que estão vindo em minha mente. - Se você faz algo contra uma pessoa assim, você se torna igual ou pior do que ela. Quando fazemos o mal, dividimos nossa alma. - Ele segura o livro e aponta para a capa "Almas Divididas" - Esse livro fala sobre isso. Ao fazermos o mal, nossa alma se divide e se continuamos com isso, ela vai se partindo até não sobrar mais nada além de trevas. Quando se faz o mal, não há volta, você amaldiçoa a própria alma.
- Eu lamento Sr. Luke, não queria que se sentisse mal. - Digo arrependida.
- Somos amigos, você precisava saber. - Ele toca minha mão e sinto o gelo da sua - Existem pessoas más no mundo mocinha, mas o futuro delas, elas mesmas escrevem. - Seus olhos encaram os meus - Queria que Sophia tivesse ido para um lugar bom, mas sei que não.
- Como assim? - Do que ele está falando?
- Ela se matou, sabe o que isso significa? - Não, a dúvida está estampada na minha cara - Significa que ela foi direto para um lugar ruim. Os suicidas não herdarão o reino dos céus.
Volto a tomar meu Shake e ele a limpar o balcão que nem sujo está.
- É por isso que está aqui? Na lanchonete? Por não conseguir um emprego?
- Abrir meu próprio negócio me trouxe lucidez, me deu um norte sobre o que fazer depois que Sophia se foi. Eu sabia onde estar e o que fazer. Não tive todos os clientes que queria, mas isso é o suficiente para mim - Diz apresentando o lugar - Estou satisfeito com o que consegui.
Sorrio, mas por dentro estou um turbilhão de emoções. Como ele pode ser tão tranquilo? Acabaram com a vida dele! Eu jamais conseguirei ser assim, dane-se minha alma. Os maus devem pagar.
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DARKNESS - Livro I
Mystery / ThrillerNão reclame da sua vida, perto desta, ela parecerá o céu.. Será possível fugir da escuridão? "Todos temos trevas em nós". Copyright Lylah Hartzler Carrillo, 2017 © All rights reserved
