Capítulo dezesseis

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Chego no prédio onde moro, com as pernas doendo do primeiro dia de trabalho. Aperto o botão do elevador e espero. Balanço o pescoço de um lado para o outro, estalando várias vezes. Nunca pensei que dançar me deixaria mais exausto do que um dia inteiro de trabalho na P&V Engenharia. Sinto um frio na barriga e de súbito me sinto um pouco triste. Eu sempre amei a profissão de engenheiro e por mais que eu goste de dançar com a Carla, sinto falta de fazer os cálculos que levei anos para aprender. Gosto da vida de trabalhar com engenharia. A porta do elevador se abre, uma mulher loira e elegante passa por mim me dando boa noite e então eu entro sozinho. Aperto o botão do andar do apartamento de Henri e fecho os olhos, enquanto a porta se fecha.

– É hora da nossa consulta mental, Sr. Pedro. – Uma voz no fundo da minha mente me desperta.

– Ah, não! Achei que isso tivesse acabado.

– É claro que não acabou. Estou sentindo que você não está tão pleno quando faz parecer. O que aconteceu? O primeiro dia de trabalho não foi bom?

Suspiro. Por mais que eu saiba que isso é apenas um jogo mental que faço comigo mesmo, resolvo continuar, afinal de contas, isso é uma forma de botar o que estou sentindo para fora – ou quase isso.

– É que eu sinto falta de ser engenheiro.

– Mas Sr. Pedro, esse foi só o seu primeiro dia.

– Eu sei. E já quero voltar, Dr. Pedro.

– Tenha paciência! Tudo acontece por um motivo.

– Você já foi melhor nas respostas... – Tento parecer sarcástico para o meu eu-psicológico.

Balanço a cabeça forte. Não quero mais essas consultas mentais. – Suspiro. – Isso só me deixa mais confuso. Tudo acontece por um motivo. Esse pensamento agora fica ressoando no fundo da minha mente. Mas qual seria o motivo de se estar desempregado?! E injustamente? Eu não fui um mau empregado, eu não fiz nada de errado!– De repente uma raiva toma conta de mim. – Isso foi muito injusto!– Fecho os punhos com força até meus dedos começarem a doer.

Alguns segundos depois a porta do elevador se abre e eu saio em direção ao apartamento de Henri. Por que você está tão nervoso, Pedro? Tudo deu certo hoje. A aula com a Carla foi um sucesso. Você tem um emprego no meio de milhões de desempregados e ainda por cima fez novos amigos. Por que está assim?– Fico me perguntando.

Respiro fundo com a chave de casa na mão. Henri já deve estar em casa, não quero que ele me veja assim, afinal de contas eu não tenho motivos para estar triste. Deu tudo certo hoje. Deixo a cabeça cair por alguns segundos e mantenho o pensamento rodando na minha cabeça. Deu tudo certo hoje Pedro, você conseguiu, você arrasou na dança, as pessoas te adoraram e amanhã vai ter mais gente querendo dançar com vocês. E acima de tudo, você está ajudando Carla no sonho dela.

– Deu tudo certo. – Sussurro para mim mesmo. – E eu estou ajudando a Carla.

Balanço a cabeça para afastar o sentimento ruim que estava tendo e procuro ficar o mais otimista possível. Coloco a chave na porta e assim que abro uma fresta, sinto o cheiro de comida no ar. Meu estômago começa a apertar de fome. Que cheiro bom! – Abro um sorriso automaticamente. Assim que fecho a porta ele aparece sorrindo. Minha boca se escancara ao vê-lo sem camisa, usando um avental branco. Olho dos pés à cabeça em câmera lenta umas três vezes. O avental é curto e ele está com as pernas malhadas para fora. Seus braços fortes então em evidência, pois ele está enxugando a mão em um pano de prato branco. Mas o que mais me cativa é o seu sorriso largo no rosto, fechando os olhos. E de repente tudo de ruim que eu estava sentindo se esvai e só me resta uma mistura de carinho, amor e gratidão por vê-lo.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora