Henri e minha mãe se unem para fazer o almoço e sobra para mim, o que não sabe cozinhar como um cheff para comprar os ingredientes que faltam no mercado da esquina. Aliás, esquina não, é bem longe, mas como hoje estou no clima familiar, faço tudo de bom grado. E é até bom dar uma volta por aí a pé e encontrar algumas pessoas pelo caminho. Gasto uns vinte minutos para ir até o mercado, fazer a compra, passar no único caixa funcionando e voltar para casa. Ao longo do caminho passo pelo bar do Ailton, onde encontrei David da última vez. Depois ainda cumprimento Tati, uma amiga que estudou comigo no ensino fundamental. Ela traz a sua filha Larissa para que o Tio Pedroa conheça. Será que vou ficar para tio mesmo? – Volto com essa pergunta martelando na minha cabeça. Sempre quis ter um filho, mas agora esse desejo está mais longe de acontecer do que nunca.
– Ora se não encontro o meu amigo perdido nessa cidade... – Alguém grita atrás de mim.
Olho num instante e abro um sorriso.
– Eu não acredito que você veio! – Sua mãe deve estar super feliz. – Muito bom te ver.
– Também é bom te ver! – Ele me abraça. – Vim de última hora. Consegui trocar um plantão. Agora só vou trabalhar em todos os outros feriados pelos próximos cinco anos e tudo fica certo.
Nós rimos.
– Ai, não aguento você, David. – Dou um passo para trás. – Se eu soubesse teria te chamado para vir com a gente.
– Pois é, mas foi realmente de última hora. Nem eu mesmo sabia que vinha. Minha mãe já tinha desistido da minha presença.
– Achei muito digno.
– Deixa eu te ajudar. – Ele pega uma sacola da minha mão, antes que eu diga que não precisa.
Começamos a caminhar de volta para casa, faltando ainda metade do caminho para chegar.
– Eu cheguei a pensar em você quando passei pelo bar do Ailton.
– Olha, é mesmo. A gente podia ir lá um dia desses. Vai ficar até quando?
– Vou embora amanhã mesmo. – Dou de ombros. – Tenho compromisso com Ralph no dia seguinte.
– Uai, mas Ralph marcando compromisso perto do natal?
– Vai entender né? Tem vez que dá uma semana de folga e em outras vezes marca pra bem depois do feriado. A cabeça de Ralph funciona a mil por hora.
– Entendi. – Ele faz uma pausa. – Então a Carla também vai trabalhar dia vinte e seis né?
– Sim. Ela não te falou?
– Não, ela falou sim. É só que eu achei que ela tinha arranjado uma desculpa para não vir comigo. – Ele faz uma expressão de triste.
– Claro que não, amigo. Ela foi para Juiz de Fora passar o natal com a família dela e vai voltar para o Rio amanhã também.
– Entendi.
– Como estão as coisas entre vocês? – Pergunto com medo da resposta.
– Ah, amigo. Eu sei que não tenho dado atenção suficiente pra ela. E eu vejo que ela não está feliz. – Ele respira fundo. – Nós tivemos uma conversa séria outro dia e eu perguntei se ela queria terminar, porque essa situação minha ainda vai durar mais um pouco até o final da minha residência.
– E ela? – Carla não me contou dessa conversa, por que será?
– Ela disse que não. Que a gente poderia passar por isso juntos.
Respiro aliviado. Carla mandou bem nessa.
– Então qual o problema? – Paro e olho para ele. – Carla sabe o que quer, ela não é boba nem inocente. Se ela decidiu passar por isso com você é porque ela realmente pensa em ter algo mais sério com você. Ela quer ser sua parceira até no momento mais difícil.
– Eu sei. – Ele olha para baixo. – E isso me faz pensar que eu não mereço que ela goste de mim assim.
– Para com isso, Doc! Tenha paciência e faça a sua parte. Se esforce também para fazer ela feliz. É tudo questão de cumplicidade. Eu sei bem como é. Henri e eu também somos assim. Quando eu estou na pior ele me salva e quando é ele eu o salvo.
– Vou fazer isso. – Ele sorri timidamente. – Obrigado.
Voltamos a caminhar, já chegando na porta da minha casa.
– E ele tá aí? – David pergunta. – Estava curioso se você tinha trazido ele mesmo.
– Está sim.
– E aí? – Ele arregala os olhos.
– Nada por enquanto. – Respondo, tentando não ficar tenso.
– Vai dar tudo certo. – Ele me entrega a minha sacola.
– Deus te ouça, Doc... Deus te ouça.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
RomanceQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
