Meu coração se acelera quando paramos na frente do que sempre foi a minha casa. Enquanto Henri estaciona debaixo de uma das várias árvores que fazem sombra do lado da rua onde minha mãe mora, fico mexendo nos meus dedos e olhando lá para fora. Ainda está quase tudo igual desde que saí há alguns anos para estudar em outra cidade. Tento não ficar ansioso, mas não consigo. É a primeira vez que Henri vem comigo aqui desde que começamos a namorar e isso está me deixando uma pilha de nervos. Não sei como minha mãe não levantou nenhuma suspeita. Tudo bem que da primeira vez que viemos foi uma emergência e Henri, de fato, era um amigo me ajudando. Mas agora é diferente, Henri novamente está comigo e no natal! Minha mãe deve saber. Mas se ela sabe, então já é meio caminho andado– meu cérebro tenta me ajudar. Ou talvez ela não saiba e quando eu contar ela vai surtar e me rejeitar como filho – contraponho.
– Ei. – uma voz me chama e eu desperto dos meus devaneios. – Tá tudo bem, Pedro?
– Tá sim, Henri. – Tento sorrir. – Eu só estava aqui pensando em algumas coisas.
– Tá nervoso? – Ele sorri timidamente.
– Um pouco. – Sorrio de volta. – Você?
– Um pouco também. – Sua expressão muda para triste. – Talvez tivesse sido melhor se eu não tivesse vindo... deixado pra outra ocasião.
– Claro que não, seu bobo. – Dou um soco leve no seu braço e tento sorrir. – Não tem nada demais em trazer você aqui, sendo amigo ou namorado. E minha mãe te ama.
– Você acha? – Ele volta a sorrir.
– Claro, tenho certeza. Ela é sua fã.
– Então tá. – Ele se vira e segura a minha mão, voltando a ficar sério. – Olha, não se preocupe em contar nada para sua família agora. Deixe para quando você e eles tiverem preparados, não precisa colocar o carro na frente dos bois por mim.
– Eu sei. – Sorrio. – Obrigado. Mas se eu vou fazer isso, vou fazer por mim também. Não gosto de ficar mentindo para minha mãe e ter que ficar te escondendo. Você é meu parceiro, Henri. E eu me orgulho muito disso.
– Me segura para não te beijar aqui agora. – Ele sorri.
Eu gargalho.
– Para seu bobo. Agora vamos.
Retiro o sinto de segurança e saio. Respiro fundo o ar fresco com cheiro de verde, levanto os braços e dou uma esticada. A viagem foi muito tranquila, apesar de cansativa. Henri deve estar mais cansado que eu, mas vai valer a pena. No fundo sinto um frio na barriga, mas prometo que vou tentar me concentrar em aproveitar o máximo possível a companhia da minha mãe, minha prima, meus tios e da minha casa tão aconchegante. E de repente uma empolgação começa a crescer dentro de mim. Tem tanta coisa que eu gostaria de mostrar a Henri. Contar um pouco da minha história de menino do interior e andar com ele por aí. Você quer exibir o seu namorado gostoso para seus vizinhos, Pedro você não vale nada – meu cérebro me cutuca. Seria uma boa mesmo – sorrio. Mas esse mundo não tá preparado para a inveja que eu vou causar.
– Qual foi a desse sorriso aí? – Henri me olha cheio de bom humor, segurando algumas sacolas no braço.
– Nada. – Tento não cair na gargalhada. – Só lembrei de uma coisa engraçada aqui.
– Depois me conta essa sua coisa engraçada pra eu rir também.
– Tá... conto... agora deixa eu te ajudar. Abre o porta-malas aqui. – Ele abre e eu começo a pegar outras sacolas de roupas para minha mãe doar e outras coisas.
O portão de casa se abre e minha mãe sai correndo ao meu encontro.
– Até que enfim, chegaram! – Ela me abraça com sacola e tudo.
– E aí Verinha. – Todo o ar é arrancado dos meus pulmões. – Nossa que abraço forte. Também estava com saudades, viu? Já conhece o Henri? – Viro a cabeça e aponto para ele.
– Olha se não é o bonitão do Henri? – Ela vai até Henri e dá um abraço nele. – E aí, meu filho, como andam as coisas?
– Tudo bem? E a senhora? Melhorou?
– Ah eu to ótima. Semana passada...
Eles engatam em uma conversa sobre como minha mãe conseguiu juntar algumas outras mães e fazer um sopão beneficente para as crianças necessitadas do bairro. Fico observando enquanto ela e Henri entram portão adentro. Henri é todo ouvidos e consegue conversar mais com a minha mãe do que eu mesmo. Seria muito bom se isso não mudasse nunca. Peço a Deus mentalmente para que minha mãe continue gostando de Henri, e principalmente de mim, mesmo depois que souber a verdade. Balanço a cabeça antes que as paranoias tomem conta dos meus pensamentos, fecho o porta-mala, engato uma primeira e vou atrás deles, desejando que tudo dê certo.
Mal chegamos em casa e já tenho um problema de percurso. Minha mãe preparou um quarto de hóspedes para Henri. E meu cérebro não para de ficar esfregando na minha cara que isso não teria acontecido se a minha mãe já soubesse que eu viria com meu namoradoe não com um amigo. Isso começa a me incomodar muito. Minha mãe sai para arrumar alguma coisa na cozinha e eu já puxo Henri de lado no quarto onde ele vai dormir.
– Eu to muito incomodado.
– Estou vendo. – Ele me olha de canto de olho.
– Não queria dormir longe de você.
– Relaxa Pedro, é só um dia. Você não vai morrer por dormir uma noite longe de mim.
– E você não ficou nem um pouco chateado. – Fecho a cara.
– Claro que fiquei, mas sejamos sensatos. É melhor assim, por enquanto. Isso é uma situação nova para a sua família, do mesmo jeito que foi para a minha.
Alguma coisa no que Henri me disse mexe comigo profundamente. Talvez ele tenha razão, foi uma coisa nova para o tio dele. E ele não reagiu nada bem– meu cérebro me lembra. Um arrepio para pelos meus braços ao pensar que minha mãe pode reagir do mesmo jeito.
– O que foi? – Ele sussurra. – Você ficou pálido.
– E se ela reagir igual seu tio? – Sussurro para ele.
– Sua mãe e meu tio são duas pessoas completamente diferentes, Pedro. – Ele volta a falar sem sussurrar, num tom de voz baixo – Meu tio ficou assim, amargurado, depois que minha tia e meus pais morreram. Ele nunca disse, mas tenho certeza que ele se culpa pela morte deles.
– Nossa, que bad, Henri. Talvez se ele tivesse tido a chance de conhecer alguém legal nesse meio tempo, já tivesse mudado de ideia.
– Ou talvez, eu tivesse um problema duplo para resolver. – Ele ri.
– Para com isso. – Dou uma cotovelada de leve na sua costela. – Isso não é brincadeira.
– Ai... pega leve. – Ele finge estar doendo. – Só relaxa, tá bem? Vai dar tudo certo.
Penso em falar alguma coisa quando ele me puxa, me joga na parede e me dá um beijo rápido, saindo logo em seguida com um sorriso no rosto, me deixando perplexo. Henri tá brincando com o perigo.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
RomanceQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
