Todas as minhas energias foram gastas na primeira parte do primeiro dia de trabalho na academia. Pela manhã, Carla me pegou para treinar a dança original da formatura – que segundo ela, era sempre pedida pelos novos alunos – e uma outra dança nova, muito difícil por sinal. Suei bastante e tive que tomar um banho no vestiário da academia antes de saírmos para almoçar em dupla. Depois de almoçarmos, vim com a Carla no shopping para comprar roupas. Acompanho o máximo que posso, mas acabo perdendo o resto das minhas forças e procuro um lugar para sentar, em meio ao protesto de uma Carla cheia de dúvidas de que roupa levar.
A primeira parte do nosso trabalho vai ser na parte da manhã, quando ensaiaremos as danças para ensinar aos novos alunos. Ralph deu uma passada na sala de danças que estávamos para ver o nosso progresso e rir um pouco enquanto eu tropeço nos meus próprios pés com os passos difíceis. Ele aproveitou a ocasião para dizer que o marketing começou com o trabalho de divulgação da equipe Sol & Lua, e que só na parte da manhã já havia esgotado quase todas as aulas. Me senti cansado só de pensar em dar várias aulas por dia, mas confesso que este é um tipo de trabalho que é muito divertido. Espero conseguir acompanhar o ritmo da Carla. Aliás, com toda essa dança eu não vou conseguir treinar musculação tão cedo. Mas anoto mentalmente para tentar fazer isso pelo menos nos dias de folga.
Meu celular avisa que chegou notificações. Olho para a tela e sinto um frio na barriga. É a minha mãe. Passei esses últimos dias conversando pouco com ela e estou me sentindo muito mal por causa disso, mas só de pensar em ter que contar para ela que seu único filho é gay eu já começo a me sentir ansioso. – Suspiro. –Não vai ter jeito P.O, você vai ter que fazer isso mais cedo ou mais tarde– meu cérebro se adianta. Desbloqueio a tela e abro suas últimas mensagens.
"Oi filho, boa tarde! Como vai?"– Recebidas às 14:12
"Só passando para deixar um beijinho e dizer que o natal está chegando. Você vem pra casa?"– Recebida às 14:12
Leio as duas mensagens da minha mãe várias vezes. Ela é tão doce comigo, seria possível ela passar a não gostar de mim por eu ser gay e por nunca poder dar netos a ela? Será que ela vai dizer que eu sou uma decepção? Que meu pai não iria gostar nada? Minha cabeça fica um turbilhão de perguntas e possíveis respostas, as quais eu sempre saio triste e machucado. Espero que minha mãe continue me amando acima de tudo.
"Oi, Verinha! :)"– Enviada às 14:14
"Estarei presente com toda a certeza. Estou morrendo de saudades."– Enviada às 14:14
Fico com o celular na mão por um instante pensando na próxima mensagem. Respiro fundo, digito e envio.
"Ah, esqueci de te dizer. Henri vai comigo. Coloca mais água no feijão. :)"– Enviada às 14:15
Engulo em seco esperando a resposta, que chega quase que imediatamente.
"Que legal. Manda um beijo para ele e diz que vai ser muito bom tê-lo por aqui."– Recebida às 14:15
"Mando sim. ;*"– Enviada às 14:16
"Beijo meu filho. Fica com Deus! s2s2s2"– Recebida às 14:16
"Fica com Deus também! s2s2s2"– Enviada às 14:17
Fico mais tranquilo com o assunto principal e acabo me esquecendo de outro assunto que terei que contar para minha mãe: que estou desempregado. Aliás, não estou desempregado mais, mas confesso que fiquei com um pouco deprimido de ter que contar para ela que passei de engenheiro para dançarino.
– O que foi? – Carla interrompe meus pensamentos. – Está com uma cara de cachorro abandonado.
– Estava aqui pensando... – Ela se senta ao meu lado no banco, cheia de sacolas penduradas nos braços.
– Me conta P.O.zinho. – Ela coloca as sacolas no chão.
– Estava falando com a minha mãe por mensagem e pensando no que vou ter que contar a ela. Digo, você sabe, sobre eu não ser mais engenheiro e... sobre o Henri.
– Mas você ainda é engenheiro, amigo. – Ela passa um braço pelo meu ombro. – As coisas realmente ficaram complicadas, e está assim pra muita gente aqui no Rio. Só que você pelo menos conseguiu outro emprego temporário, não é vergonha dizer isso pra ela. Muito pelo contrário, tenho certeza de que ela prefere você trabalhando em o que quer que seja do que estar desempregado.
– É verdade. – Digo baixinho.
– E sobre o Henri... – Ele faz uma pausa e eu viro para o lado para ler o seu olhar. – Não é sobre o Henri que você está preocupado, é sobre você, não é?
– É sim, Carlitcha. – Suspiro. – Tenho medo de contar para ela que sou gay. Não sei qual seria a sua reação. Minha mãe é tão carinhosa comigo, não sei se aguentaria perder todo esse carinho.
Ela me puxa e eu deito em seu ombro.
– Não diz isso, amigo. Justamente por ela ser tão boa, é que a gente tem que esperar a melhor resposta dela. Tenho certeza de que ela vai te surpreender.
– Mas... – fecho os olhos – e se eu contar tudo isso, passar por toda essa situação e um dia o Henri... você sabe... me deixar? – Aperto os olhos com os dedos. – É um caminho sem volta, Carla. Nunca mais eu poderia voltar e apresentar uma namorada, sei lá.
– E você acha que sua sexualidade tem volta?
Penso por um momento em tudo o que aconteceu desde quando conheci Henri. Uma coisa dentro de mim mudou completamente. Não enxergo mais homens e mulheres da mesma forma como enxergava – ou talvez fingia estar enxergando.
– Não. – Respondo por fim.
– Mas uma coisa me deixou incomodada nesse seu pensamento doido.
– O quê? – Levanto a cabeça e me viro para olhá-la.
– Por que você acha que o Henri vai te deixar?
– Sei lá. – Dou de ombros. – Nunca se sabe. Aconteceu tudo tão rápido que às vezes eu tenho medo de que ele perceba que foi só uma aventura e que cansou de mim. Eu tenho muito medo de perdê-lo.
Carla abaixa levemente a cabeça, abre um sorriso e fica fazendo balançando a cabeça para os lados.
– P.O.zinho, P.O.zinho, você às vezes me surpreende com a sua ingenuidade.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
RomanceQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
