Capítulo quarenta e três

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A proposta para Ralph não foi do jeito que planejamos, mas ainda assim deu certo. Saímos para conversar melhor aquele dia, depois do expediente. Carla e eu contamos sobre o sucesso da dança na boate que fomos e falamos sobre a oportunidade de ajudar patrocinando a parada. Ele disse que não poderia vincular a marca da Body Moveno patrocínio, mas que o grupo Sol e Lua estava liberado, além do mais, boa parte do público do grupo é de gays, então fazia todo sentido.

E digamos que as coisas saíram um pouco do controle de uma semana para cá. Ralph acabou mergulhando de cabeça no nosso projeto e o que seria só uma forma de patrocínio, agora inclui uma coreografia super difícil, com direito a dublagem e vídeo. Carla e eu aceitamos o desafio e começamos a abrir pequenas filiais nos bairros da cidade, com aulas gratuitas da coreografia que usaremos na apresentação da parada em algumas semanas.

– Boa, turma! – O diretor diz. – Vamos dar uma pausa agora, tomar uma água e retomar da parte onde paramos, ok? Voltamos em trinta minutos.

Me encosto na parede e viro uma garrafa de água, deixando cair um pouco no meu pescoço vermelho. Gotas de suor escorrem pelos lados da minha cabeça e minha camiseta branca começa grudar no corpo. A coreografia que estamos ensaiando junto à um diretor de vídeos é para sermos filmados ao vivo durante o evento. Tudo inclui dublagem de uma música – na qual eu até posso cantar de verdade no microfone, mas acho que vou ficar só na dublagem mesmo – e muita dança. No começo estava tudo indo às mil maravilhas, mas depois de dias ensaiando e errando muito, começo a me sentir um pouco estressado. O trabalho com a dança não está me dando o prazer que eu sentia quando era apenas Carla dando uma aula para uma turma pequena e eu participando como coadjuvante.

As mini salas de dança que Ralph mandou abrir espalhadas pela cidade tem o objetivo de ensinar a coreografia da apresentação para o maior número possível de pessoas e eleger alguém muito bom para repassar para mais outra turma e assim sucessivamente. Ralph espera que o evento atraia na casa do milhão de pessoas, já que faz tempo que não acontece uma parada dessas, devido à falta de verbas. No projeto visual que ele nos mostrou há balões gigantes por toda a orla de Copacabana com a marca do grupo Sol e Lua. E se tudo der certo, algumas das salas espalhadas pela cidade poderão ser eleitas como filiais do grupo.

– E aí? Como está se saindo? – A voz de Ralph me desperta.

Ele está do meu lado encostado na parede, apoiado por uma perna. Está usando roupa casual, ainda assim muito elegante. Sua barba está maior do que o de costume, com um aspecto mais ruiva do que o normal.

– Estou cansado. – Tomo outro gole. Não consigo sorrir. – Acho que depois dessa, vou me aposentar.

Ele ri.

– Como assim se aposentar?

– Ah sei lá, vou arranjar outra coisa para fazer. Tentar voltar a ter um emprego na engenharia, fazer uma especialização... não sei... algo que não me faça suar tanto.

– Sério, P.O? – Sua expressão fica triste.

– Sério. – Suspiro. – Depois dessa eu vou me aposentar real oficial. Posso voltar vez ou outra para dançar, mas como forma de me distrair, me divertir, não como trabalho.

– Essa semana foi meio tensa né? – Ele faz uma careta.

– Foi sim.

– Desculpa ter arrumado mais trabalho para vocês. – Ele fica em silêncio por um instante. – Sabe, essa vai ser a minha última ajuda ao grupo Sol e Lua.

– Como assim? – Me viro para olhá-lo. Ele está com uma expressão triste, olhando para os próprios pés.

– Eu vou me mudar para Curitiba. Vou entregar o grupo para Carla, afinal ele sempre foi dela, é hora de ela começar a caminhar sozinha. – Ele abre um sorriso tímido e levanta o olhar para me encarar. – Esperava que você ficasse no meu lugar.

Começo a me sentir triste pela partida de Ralph. Desde que vim para o Rio de Janeiro e o conheci minha vida tem sido muito mais fácil. Toda vez que precisei de alguma coisa, ele estava lá para me ajudar e me apoiar. Seu bom humor e sua inteligência vão me fazer falta. Talvez nem a academia seja a mesma sem ele por aqui.

– Poxa, Ralph. Já está decidido isso?

– Bom... ainda existe uma pessoa capaz de me fazer mudar de ideia. – Ele me encara. Seus olhos brilhando, segurando o meu olhar neles, como dois imãs.

Consigo entender o que ele quer dizer, apesar de não poder fazer nada a respeito. Fico ali em silêncio por uns segundos, depois digo as palavras mais sinceras que consigo.

– Você vai encontrar alguém especial, Ralph. Que te dê o carinho que você merece.

– Vai sentir a minha falta pelo menos? – Ele sorri, timidamente.

– É claro que vou. – Sorrio de volta. – Mas ainda estamos perto. Venha sempre me visitar.

– Virei. – Ele responde com uma verdade absoluta, algo que eu nunca poderia duvidar.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora