Capítulo quarenta

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Minha mãe entra com a expressão mais normal do mundo dentro do quarto. O clima começa a ficar tenso, tanto minha prima quanto eu nem piscamos. Ela abre bem porta, a encosta na parede, olha para mim e para minha prima e faz uma expressão confusa.

– O que vocês estão fazendo?

Olho para Lalá e ela me olha de volta, damos de ombro juntos. Minha mãe é estranha. A gente aqui na maior preocupação para saber da conversa e ela chega como se nada tivesse acontecido. Ai, dona Vera!

– Como assim, mãe? – Tento não revirar os olhos. – Conta da conversa logo! Para de suspense!

Vou até ela, a puxo pela mão e trago ela para sentar na cama. Lalá e eu sentamos ao seu lado. Minha mão está suando de ansiedade para saber tudo o que conversaram.

– E aí? – Pergunto, sem nem conseguir piscar os olhos.

– E aí, normal. – Ela diz casualmente. – Conversamos.

– Sobre o que, mãe?! Estou curioso.

– Então, nós nos sentamos e eu me apresentei como sua mãe e tal. Ele ficou meio surpreso, mas foi super bem educado comigo. Depois comecei a falar que fiquei sabendo que você era gay há pouco tempo e contei como foi, como me senti e tal.

– E ele? – Lalá pergunta.

– Ele é um pouco fechado. Não falou quase nada, mas escutou com muita atenção. Concordou com algumas coisas que eu disse, discordou de outras. Aí fomos conversando sobre outras coisas e tal. – Ela faz uma expressão confusa. – Não achei ele o tipo do homem que você descreveu não, Pedro.

– Gente, nem parece estamos falando dele. – Digo, perplexo.

– Pois é! Foi super bem-educado comigo.

– Talvez isso seja uma máscara que ele usa. – Lalá diz casualmente.

– Também acho. – Concordo.

– Ai, vocês dois estão de paranoia. – Ela se levanta e começa a arrumar as coisas. – Nossa, esse quarto está uma bagunça! Vou dar uma arrumada antes de dormirmos.

– Mãe! – Protesto e ela me olha de lado. – Foi só isso?!

– Foi, meu filho. Não teve nada demais. Apenas dois adultos conversando.

– E você acha que ele vai aceitar o sobrinho ser gay? – Lalá pergunta.

– Não sei. – Ela dá de ombros e dobra uma calça jeans. – Cada um tem o seu próprio tempo. Eu não suportei ficar longe do meu filho por uma bobagem, mas eu só descobri que era bobagem depois que refleti muito.

– É verdade, tia.

– Sei lá... – penso um pouco – espero que ele aceite Henri do jeito que ele é, independente de mim.

– Isso mesmo, meu filho. Vamos ter fé.

– Então tá bom! – Me levanto e dou um abraço em minha mãe. – Obrigado, Verinha. Não queria trazer problemas. E fiquei com medo que ele fosse um grosso com a senhora.

– Tudo bem, meu filho. Não foi nada. Às vezes as pessoas só precisam de alguém pra conversar. Ainda bem que eu estava por aqui.

– Ainda bem mesmo. – Dou-lhe um beijo no rosto. – Te amo!

Saio do abraço e estico os braços para o alto, fazendo alguns estalos.

– Então vou deixar as senhoritas à vontade. Tá na hora de dormir. Vou para o meu quarto, qualquer coisa vocês batem lá.

– E o Henri? – Lalá pergunta.

– Ah, vai chegar de manhã. – Me encaminho para a porta. – E amanhã vamos passear um pouco pelo Rio de Janeiro.

– Oba! – Lalá comemora.

– Boa noite, meu filho! Dorme com Deus!

– Boa noite, mãe! Boa noite, Lalá!

– Boa noite, primo!

A casa está toda escura, com exceção do quarto de hóspedes. Passo para o meu quarto, acendo a luz do abajur e fecho a porta. Deito na cama e fico olhando para o nada. Será que o Tio de Henri um dia vai aceitar que ele goste de outro homem? E se aceitar, será que vai demorar? Seria tudo muito melhor entre a gente se a nossa família nos aceitasse. A minha já aceitou. Fecho os olhos e desejo com todas as minhas forças que o tio de Henri aceite a ele e a mim também.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora