Capítulo trinta e nove

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Passo em frente ao banheiro do quarto de hóspedes, cuja luz está acesa. Não me dou conta que minha prima está aqui dentro até que ela me vê passando.

– Primo, o que aconteceu? – Ela diz sussurrando.

Me jogo na cama de casal, cheia de roupas da minha mãe e utensílios de beleza, tirando um secador de cabelo do meio do caminho. Minha prima está de pijama e uma toalha branca enrolada na cabeça. Ela me olha atenta, procurando entender minha expressão de preocupação.

– O tio de Henri apareceu. Estávamos conversando quando minha mãe chegou e pediu para conversar com ele.

Ela coloca a mão na boca, perplexa.

– Mas e aí? – Ela pega as coisas de cima da cama, coloca no chão e se senta ao meu lado.

– E aí que ela quis conversar com ele a sós. – Minha frustração é aparente. Minha prima faz uma careta.

– E ele aceitou? – Ela começa a roer uma unha.

– Uai, aparentemente sim né? – Penso um pouco. – Na verdade ele nem disse nada. Ficou lá paradão, até pareceu que estava nervoso.

– Ai, eu daria tudo para escutar a conversa.

– Acho que eu prefiro nem saber. – Me jogo de costas na cama, cruzo os braços e fico fitando o teto.

– Você acha que ela vai tentar conversar com ele sobre Henri?

– Sinceramente? Eu não sei. Eu mesmo nunca esperei que a minha mãe um dia se encontrasse com o tio de Henri. – Balanço a cabeça. – Ainda mais nessas condições.

Lalá se levanta, desenrola a toalha da cabeça e começa a secar o cabelo.

– É verdade. – Diz pensativa.

Ficamos em silêncio por um tempo. Minha prima secando o cabelo e eu olhando para o teto branco iluminado pela luz amarela. O que será que eles estão conversando? Eu tenho até medo de saber. Será que ele está sendo um grosso com ela? Se ele faltar com o respeito com a minha mãe ele vai conhecer quem é Pedro Otávio, vulgo P.O!

A voz de Lalá me desperta.

– Primo, quando foi que você descobriu que era gay? – Eu a olho pelo canto do olho, ainda está secando cabelo casualmente. – Tipo, você viu Henri na academia e engayzou?

Começo a rir pela palavra que minha prima falou.

– Sério! – Ela sorri. – Me conta!

– Sei lá. – Dou de ombros. – Eu acho que sempre fui gay a minha vida toda.

– Mas você ficava com garotas, eu lembro.

– Sim, eu ficava. Naquela época eu não tinha noção de que havia outras opções... sei lá, beijar garotos até me passava pela minha cabeça, assim como beijar garotas, não tinha uma diferença, então eu sempre escolhi pelo mais fácil... não sei se escolheré a melhor palavra pra isso, talvez eu só ignorasse beijar garotos pelo meu próprio bem.

– Entendi. – Ela diz.

– Aí um belo dia eu vi Henri na academia e me deu uma vontade forte de beijá-lo. Depois disso, sei lá, parece que uma porta se abriu dentro de mim e eu comecei a enxergar os homens de uma outra forma.

– Beijar mulher é legal e tal... – continuo – mas não tem o mesmo sabor que beijar homem. – Lembro do meu primeiro beijo com Henri, dentro do carro. – Sei lá, meu coração dispara, meu corpo se arrepia, é um sentimento completamente diferente, muito mais intenso.

Ela fica calada e o máximo que consigo escutar é o barulho de um carro passando ao longe. Levanto um pouco a cabeça e ela está de frente para mim com uma expressão pensativa.

– O que foi?

– Eu acho que gosto de meninas. – Sua expressão muda para envergonhada.

Levanto de uma só vez e me sento na cama, cruzando as pernas. Fico perplexo com o que acabei de ouvir, minha boca está escancarada e meus olhos arregalados.

– Você o quê?!

Ela suspira e volta a se sentar do meu lado. Meio de costas para mim.

– Então... eu sempre tive esse sentimento de confusão. – Ela coloca as mãos entre as pernas e abaixa o olhar, fitando os próprios pés. – Também já fiquei com garotos, mas eu sempre me apaixono por alguma garota da minha sala.

– Mas você já...? – Não consigo terminar a frase, estou muito chocado.

– Beijei alguma? – Ela dá uma risadinha. – Já sim! Várias. E igual você falou, é muito mais intenso. – Ela se vira e me olha. Seu rosto está um pouco vermelho. – O que eu faço?

Nunca pensei que escutaria isso de alguém da minha própria família. É tudo tão solitário quando você se assume gay para as pessoas mais próximas da sua vida e eu tinha minha prima como uma aliada minha desde quando ela descobriu. Contava com ela como alguém do time "dos normais" e que pudesse me ajudar de alguma forma. E agora ela me solta essa bomba. – Respiro fundo. – Preciso dizer alguma coisa... mas o quê? O que você gostaria que te dissessem, Pedro?

– Nada. – Dou de ombros. – Você não precisa "fazer alguma coisa", simplesmente viva a sua vida. Estude bastante! Você é inteligente, vai se dar bem na vida se estudar. Não fique só pensando em mulher, estude! E... quanto à relacionamento... normal. – Sorrio. – Você vai arrumar uma garota que te ame em algum momento da sua vida.

– Você não sabe o peso que tirou das minhas costas quando descobri que você era gay. – Ela dá uma risadinha. – Eu já não era a única da família. E pra completar era você! O meu primo bem-sucedido, engenheiro, formado, morador do Rio de Janeiro... foi tão libertador!

– Bem-sucedido é meio né... exagerado. – Eu a puxo para um abraço. – Mas fico feliz de que tenha aliviado um pouco a sua barra. Agora é se aceitar como você é... viver e ser feliz. Só toma cuidado que o mundo ainda não é o melhor lugar para quem é diferente da maioria.

– Eu sei. – Ela sorri. – Mas ainda vale muito a pena ser a gente mesmo.

– Com certeza. – Levanto o punho e ela bate.

A porta do quarto se abre de repente e eu dou um pulo para fora da cama. Havia me esquecido completamente que minha mãe e o tio de Henri estavam conversando. Lalá e eu ficamos encarando a porta na expectativa quando entra minha mãe.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora